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Escrever a mãe sem transformar a mãe em santa

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Escrever sobre a própria mãe é entrar em uma casa onde todas as portas rangem. Não porque haja algo necessariamente sombrio ali. Mas porque tudo faz barulho. Uma lembrança encosta na outra. Um gesto antigo puxa uma frase. Uma frase puxa uma culpa. Uma culpa puxa uma cena que talvez nem tenha acontecido exatamente daquele jeito, mas que ficou guardada como se tivesse. A mãe, na literatura, costuma correr dois riscos: virar santa ou virar ré. De um lado, a mãe perfeita. A mulher que sofreu, amou, cuidou, renunciou, sustentou o mundo em silêncio e, por isso, passa a ser colocada num altar. Do outro, a mãe culpada. A origem de todos os traumas, de todas as faltas, de todas as rachaduras do filho. Nenhuma das duas me interessa muito. A santa é imóvel demais. A ré é simples demais. Uma mãe, antes de ser mãe, é uma pessoa. E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de escrever. Porque, para o filho, a mãe quase sempre nasce junto com ele. É como se ela começasse a existir no momen...

O filho que escreve a mãe

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Há um gesto delicado, quase perigoso, em escrever sobre a própria mãe. Não perigoso porque falte amor. Talvez justamente o contrário. Perigoso porque existe amor demais, proximidade demais, memória demais. A mãe é uma figura tão próxima que às vezes se torna invisível. Ela está no começo de tudo: no corpo, na língua, na comida, no medo, no modo como a gente segura uma xícara, na maneira como pedimos desculpas, no tipo de tristeza que aprendemos a reconhecer como nossa. E talvez por isso seja tão difícil transformá-la em literatura. A mãe, para o filho, costuma aparecer primeiro como função. Ela cuida. Ela protege. Ela reclama. Ela trabalha. Ela prepara alguma coisa. Ela espera. Ela se irrita. Ela diz para levar blusa. Ela é presença, cobrança, abrigo, limite, culpa. Durante muito tempo, talvez a gente nem perceba que há uma pessoa ali. Uma pessoa inteira. Foi isso que mais me atravessou em Lutas e metamorfoses de uma mulher   1 , de Édouard Louis. O livro parece nascer de um...