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Mostrando postagens com o rótulo la Margarita

Por que os personagens detestáveis costumam ser os mais interessantes

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Na vida, tentamos evitar pessoas detestáveis. Na literatura, precisamos agradecer quando elas aparecem. Personagens excessivamente corretos costumam ser difíceis de sustentar por muitas páginas. Eles não interrompem conversas, não criam problemas desnecessários, não fazem julgamentos absurdos nem obrigam os outros personagens a reorganizar a própria vida ao redor deles. Em resumo: comportam-se bem demais para produzir um romance. Ignatius J. Reilly, protagonista de Uma confraria de tolos , de John Kennedy Toole, é um ótimo exemplo do contrário. Ele é arrogante, preguiçoso, ressentido, exagerado e profundamente convencido de que o mundo moderno está errado — e de que ele é uma das poucas pessoas capazes de perceber isso. Ignatius vive com a mãe, Irene, e boa parte da força cômica do livro nasce dessa convivência. Ele depende dela, critica suas decisões, ocupa sua casa e, ao mesmo tempo, parece considerar-se intelectualmente superior a todos ao redor. É difícil gostar dele. Também é d...

Como escrever aquilo que você não conhece

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Sempre ouvimos que devemos escrever sobre aquilo que conhecemos. Acho que esse conselho está incompleto. Se todos os escritores o seguissem ao pé da letra, metade da literatura nunca teria existido. Ninguém conhecia uma baleia branca obcecada antes de Moby-Dick . Ninguém havia vivido o futuro imaginado por George Orwell. Ninguém visitou Macondo antes de Gabriel García Márquez criá-la. A literatura sempre atravessou territórios desconhecidos. Então por que esse conselho continua sendo repetido? O que realmente conhecemos? Talvez a frase nunca tenha querido dizer que devemos escrever apenas sobre fatos que vivemos. O que conhecemos, de verdade, são as emoções. Sabemos como é sentir medo, culpa, esperança, saudade, desejo ou arrependimento. Essas experiências podem existir dentro de uma nave espacial, de um castelo medieval ou de uma pequena cidade do interior. O cenário muda. A condição humana permanece. É isso que torna possível escrever sobre mundos que nunca habitamos. A pes...

Quantas versões existem de uma mesma pessoa?

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Há uma tendência curiosa quando tentamos lembrar de alguém: acreditamos que estamos falando da mesma pessoa, quando, na verdade, cada memória revela uma versão diferente dela. A mesma mulher pode ser mãe para um filho, irmã para alguém, amiga de infância, vizinha, colega de trabalho. Em cada uma dessas histórias ela ocupa um lugar diferente. Não porque estivesse fingindo ser outra pessoa, mas porque nenhuma vida cabe inteira dentro de um único olhar. Talvez seja por isso que escrever sobre alguém seja tão difícil. Não basta lembrar dos acontecimentos. É preciso aceitar que a nossa lembrança é apenas uma entre muitas possíveis. Ela é verdadeira, mas não é completa. Quando comecei a escrever la Margarita , descobri que não estava tentando reconstruir uma biografia. Estava tentando entender qual era a Margarita que existia nas minhas lembranças. E essa diferença mudou completamente a maneira como escrevi o livro. Durante muito tempo imaginei que memória fosse um arquivo. Hoje acho qu...

A roda de fiar da capa de la Margarita não está ali por acaso

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Quando alguém olha pela primeira vez para a capa de la Margarita , normalmente repara na roda de fiar antes de qualquer outra coisa. É um objeto antigo, pouco comum nas capas de livros contemporâneos. Justamente por isso, ela chama atenção. Ela está ali de propósito. Não porque apareça na história como um objeto importante. Nem porque eu quisesse criar uma atmosfera de época. A roda de fiar ocupa o centro da capa porque ela sintetiza uma das ideias que mais me acompanharam enquanto escrevia o romance: algumas vidas são construídas fio por fio. Uma roda de fiar faz exatamente isso. Ela transforma fibras dispersas em um único fio contínuo. O movimento parece simples, quase repetitivo, mas dele nasce algo resistente o suficiente para ser tecido. Sempre achei bonita essa imagem. A memória também funciona assim. Ela raramente chega pronta. É feita de pequenos fragmentos que, com o tempo, aprendemos a ligar. Tempo que gira Existe outra razão para essa escolha. A roda não trabalha depre...

Como escrever sobre a própria família sem transformar todo mundo em personagem processável

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Escrever sobre a própria família é uma das formas mais perigosas de literatura doméstica. Não porque falte material. Material costuma sobrar. Famílias são pequenas fábricas de cenas, frases absurdas, silêncios antigos, feridas mal arquivadas, tias que sabem demais, primos que não sabem nada e almoços em que todo mundo finge que a história começou no arroz. O problema é justamente esse: tem coisa demais. Quando a gente escreve sobre a própria família, não está apenas inventando personagens. Está mexendo em pessoas que ainda existem, existiram ou continuam existindo dentro da cabeça de alguém. E essas pessoas podem ter CPF, memória própria, advogado imaginário e uma versão completamente diferente dos fatos. A pergunta, então, não é apenas: posso escrever sobre minha família? Pode. A pergunta melhor é: como escrever sobre minha família sem transformar todo mundo em personagem processável? Família não é material neutro Todo escritor usa a própria vida, mesmo quando jura que não. ...

A maternidade sem documento

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Em la Margarita , há uma cena de aniversário que me acompanha de um jeito estranho. Não é uma cena grandiosa. Não tem festa, não tem abundância, não tem epifania cinematográfica. Tem um bolinho de chocolate pequeno demais, uma vela branca grossa demais, daquelas que se usam quando falta luz, e uma menina que, aos catorze anos, já aprendeu a não esperar muita coisa do próprio aniversário. Margarita diz que nunca se empolgava com estas datas. Em casa, Mamá fazia o mínimo possível. Assava um bolo, reunia os irmãos, aplaudia baixo. Quase inaudível. Como se aquele gesto fosse mais uma obrigação do que um ato de carinho. E talvez seja isso que doa na cena. Não é a ausência completa do cuidado. É o cuidado pela metade. O cuidado sem calor. O gesto que existe, mas não chega. Logo depois, Margarita encontra la Ofélia, e o dia muda de temperatura. As duas vão ao clube, assistem ao jogo de basquete, treinam, correm, riem, roubam frutas secas da cozinha da igreja e fogem da mulher do pastor com...

O espanhol, o português e a língua da mãe

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Em la Margarita , o espanhol e o português não são apenas idiomas. Eles são território. São casa. São cicatriz. São aquilo que sobra quando alguém atravessa uma fronteira e percebe que o corpo chegou antes da linguagem. A língua da minha mãe não era exatamente o espanhol. Era uma mistura de espanhol entrerriano, português aprendido no susto, alemão herdado como ruído familiar, religião, insulto, carinho torto, comando doméstico e sobrevivência. Logo no começo do livro, Margarita se apresenta como alguém feita de duas geografias e duas línguas:   “Eu que com estas mãos construí uma vida em dois países e duas línguas quando estudei de noite em uma turma mal frequentada para terminar a primaria e secundaria […] E sou eu e meu filho y nadie más.”   Gosto muito desse “y nadie más”. Em português, “e ninguém mais” funcionaria. Mas não teria o mesmo peso. “Y nadie más” parece fechar uma porta com força. Parece uma mulher colocando o filho debaixo do braço e dizendo: daqui para fren...

Escrever a mãe sem transformar a mãe em santa

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Escrever sobre a própria mãe é entrar em uma casa onde todas as portas rangem. Não porque haja algo necessariamente sombrio ali. Mas porque tudo faz barulho. Uma lembrança encosta na outra. Um gesto antigo puxa uma frase. Uma frase puxa uma culpa. Uma culpa puxa uma cena que talvez nem tenha acontecido exatamente daquele jeito, mas que ficou guardada como se tivesse. A mãe, na literatura, costuma correr dois riscos: virar santa ou virar ré. De um lado, a mãe perfeita. A mulher que sofreu, amou, cuidou, renunciou, sustentou o mundo em silêncio e, por isso, passa a ser colocada num altar. Do outro, a mãe culpada. A origem de todos os traumas, de todas as faltas, de todas as rachaduras do filho. Nenhuma das duas me interessa muito. A santa é imóvel demais. A ré é simples demais. Uma mãe, antes de ser mãe, é uma pessoa. E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de escrever. Porque, para o filho, a mãe quase sempre nasce junto com ele. É como se ela começasse a existir no momen...

O filho que escreve a mãe

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Há um gesto delicado, quase perigoso, em escrever sobre a própria mãe. Não perigoso porque falte amor. Talvez justamente o contrário. Perigoso porque existe amor demais, proximidade demais, memória demais. A mãe é uma figura tão próxima que às vezes se torna invisível. Ela está no começo de tudo: no corpo, na língua, na comida, no medo, no modo como a gente segura uma xícara, na maneira como pedimos desculpas, no tipo de tristeza que aprendemos a reconhecer como nossa. E talvez por isso seja tão difícil transformá-la em literatura. A mãe, para o filho, costuma aparecer primeiro como função. Ela cuida. Ela protege. Ela reclama. Ela trabalha. Ela prepara alguma coisa. Ela espera. Ela se irrita. Ela diz para levar blusa. Ela é presença, cobrança, abrigo, limite, culpa. Durante muito tempo, talvez a gente nem perceba que há uma pessoa ali. Uma pessoa inteira. Foi isso que mais me atravessou em Lutas e metamorfoses de uma mulher   1 , de Édouard Louis. O livro parece nascer de um...