asas de metal
O anjo de asas de metal Durante boa parte da minha infância sonhei com o mesmo anjo. Não sei exatamente quando começou. Devia ter uns oito anos. Também não lembro quando terminou. Talvez aos treze, pouco antes de nos mudarmos da Argentina para o Brasil. O que sei é que, durante anos, o sonho voltava. Era sempre à noite. Eu corria por ruas vazias enquanto um anjo voava acima de mim. Não tentava me alcançar. Não dizia uma palavra. Apenas me seguia. Eu corria. Tentava gritar. Nenhum som saía da minha boca. O detalhe mais estranho é que suas asas não eram feitas de penas. Eram de metal. Durante muito tempo pensei que o que havia permanecido comigo fosse o medo. Afinal, era um pesadelo recorrente. Mas, muitos anos depois, percebi que minha memória havia escolhido guardar outra coisa. Sempre que penso naquele sonho, a primeira imagem que me vem à cabeça não é a da perseguição. É a da luz. A luz da noite refletindo naquele metal. É curioso como a memória funciona....