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Mostrando postagens de maio, 2026

O filho que escreve a mãe

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Há um gesto delicado, quase perigoso, em escrever sobre a própria mãe. Não perigoso porque falte amor. Talvez justamente o contrário. Perigoso porque existe amor demais, proximidade demais, memória demais. A mãe é uma figura tão próxima que às vezes se torna invisível. Ela está no começo de tudo: no corpo, na língua, na comida, no medo, no modo como a gente segura uma xícara, na maneira como pedimos desculpas, no tipo de tristeza que aprendemos a reconhecer como nossa. E talvez por isso seja tão difícil transformá-la em literatura. A mãe, para o filho, costuma aparecer primeiro como função. Ela cuida. Ela protege. Ela reclama. Ela trabalha. Ela prepara alguma coisa. Ela espera. Ela se irrita. Ela diz para levar blusa. Ela é presença, cobrança, abrigo, limite, culpa. Durante muito tempo, talvez a gente nem perceba que há uma pessoa ali. Uma pessoa inteira. Foi isso que mais me atravessou em Lutas e metamorfoses de uma mulher   1 , de Édouard Louis. O livro parece nascer de um...

O menor conto do mundo ainda precisa de um mundo

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Há uma frase de Augusto Monterroso que parece pequena demais para ser um conto e grande demais para ser apenas uma frase:   “Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí.”   Em português:   “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.”   Durante muito tempo, esse microrrelato foi tratado como “o menor conto do mundo”. Talvez hoje existam textos ainda menores, exercícios mais radicais, frases que tentam vencer essa corrida meio absurda pela miniatura absoluta. Mas o conto de Monterroso continua sendo um dos exemplos mais perfeitos de uma coisa que me interessa muito: a literatura não depende do tamanho do texto, mas do tamanho do mundo que o texto consegue abrir dentro da cabeça do leitor. O que existe ali? Alguém acorda. Um dinossauro permanece. Nada mais. Só que, justamente porque nada é explicado, tudo começa. Quem acordou? Uma criança? Um adulto? Um sobrevivente? Um país? Esse dinossauro estava no sonho ou no quarto? Ele é literal ou simbólico? Repre...

The Mountain Goats como manual anti-autoajuda

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A autoajuda tradicional costuma prometer uma coisa muito específica: conserto. Ela diz que existe um método. Um hábito. Uma rotina matinal. Um aplicativo. Uma planilha. Uma versão melhor de você esperando do outro lado da disciplina. A autoajuda gosta dessa imagem: você, finalmente organizado, bebendo água, acordando cedo, meditando, fazendo cardio, respondendo e-mails com serenidade, aceitando o passado, perdoando seus pais, superando o ex, arrumando a casa, investindo melhor, respirando fundo e sendo, enfim, funcional. The Mountain Goats não promete nada disso. E talvez seja exatamente por isso que ajude. A banda de John Darnielle não parece interessada em transformar você na sua melhor versão. Ela parece mais interessada em sentar ao seu lado enquanto você ainda é uma das suas piores versões — e não ir embora. Isso é muito diferente. Porque há momentos da vida em que a última coisa que precisamos é de alguém dizendo: “você consegue.” Às vezes, “você consegue” soa quase o...

The Best Ever Death Metal Band in Denton: quando punir o sonho cria monstros

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Há uma coisa muito bonita — e muito perigosa — em levar adolescentes a sério. Digo perigosa porque adolescentes, quando levados a sério, deixam de ser apenas “uma fase”. Deixam de ser barulho no quarto. Deixam de ser cabelo estranho, camiseta preta, nome de banda ruim, desenho de pentagrama no caderno, raiva teatral, letra escrita com caneta Bic na última página da apostila. Quando levamos adolescentes a sério, percebemos uma coisa desconfortável: muitas vezes eles estão tentando salvar a própria vida com os materiais mais precários possíveis. Uma guitarra ruim. Um quarto emprestado. Um amigo. Um nome de banda. Uma fantasia de fuga. Uma frase absurda repetida como oração. É disso que fala “The Best Ever Death Metal Band in Denton” , dos The Mountain Goats . A música está no álbum All Hail West Texas , lançado originalmente em 2002, um disco frequentemente lembrado pela crueza lo-fi e pela força narrativa das canções de John Darnielle. A história é simples: dois garotos, Cyrus...

Morrer em uma cidade que não para: O ano em que morri em Nova York, Paris e The Mountain Goats

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Existe uma fantasia muito persistente de que uma viagem pode nos salvar. Não digo salvar no sentido turístico da coisa — descansar, conhecer lugares, tirar fotos, comer melhor, caminhar mais. Digo salvar num sentido quase religioso: sair de um lugar para que uma versão antiga de nós fique para trás. Como se bastasse atravessar o oceano para que a tristeza perdesse o endereço. Como se a depressão tivesse preguiça de passar pela imigração. Mas não é assim. A tristeza viaja junto. Talvez nenhuma música do The Mountain Goats diga isso de forma mais direta do que “Up the Wolves” . Há uma imagem ali que sempre me pareceu brutal: a de que existe um fantasma no fundo do armário, não importa onde você more. Essa é uma frase quase perfeita sobre a inutilidade parcial das fugas. Porque a gente costuma imaginar o trauma como uma coisa presa ao lugar. A casa antiga. O quarto antigo. A cidade antiga. O relacionamento antigo. Então, em algum ponto, parece lógico pensar: se eu sair daqui, se eu atrave...