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Mostrando postagens de junho, 2026

Autobiografia, autoficção e autoetnografia: qual é a diferença?

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Toda vez que alguém escreve a partir da própria vida, está fazendo autobiografia? A resposta curta seria: não exatamente. A resposta mais honesta seria: depende do tamanho da confusão. Porque escrever a partir da própria vida nunca é apenas “contar o que aconteceu”. A vida, quando passa para o papel, muda de roupa. Ganha ritmo, corte, silêncio, exagero, vergonha. A lembrança que parecia sólida começa a desmanchar na mão. O episódio que parecia central fica pequeno. A cena lateral, aquela que ninguém fotografou, cresce até ocupar o livro inteiro. E então surgem essas palavras que às vezes parecem parentes próximos, mas não são a mesma coisa: autobiografia , autoficção e autoetnografia . Todas lidam com o “eu”. Mas cada uma desconfia dele de um jeito diferente. Autobiografia: quando a vida tenta virar relato A autobiografia é, talvez, a forma mais conhecida de escrita de si. Nela, uma pessoa conta a própria vida, geralmente tentando organizar a experiência em uma narrativa reco...

O entretenimento que mata

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Existe uma fantasia secreta em todo entretenimento: a de que ele consiga, por alguns minutos, nos libertar de nós mesmos. É por isso que a gente abre o TikTok sem querer abrir o TikTok. É por isso que um episódio vira três, que uma pesquisa inocente no YouTube vira uma investigação de quarenta minutos sobre um assunto que não nos interessava até oito segundos atrás. É por isso que às vezes a gente não assiste a alguma coisa porque quer, mas porque não consegue mais não assistir. David Foster Wallace entendeu isso antes de quase todo mundo. Em Infinite Jest , há um filme tão prazeroso, tão perfeitamente feito para o desejo humano, que quem assiste perde a vontade de fazer qualquer outra coisa. Não é apenas um filme bom. Não é uma obra-prima. É uma armadilha sensorial. O livro se refere a ele como “the Entertainment” 1 — o entretenimento definitivo, ou melhor, o entretenimento tão perfeito que deixa de ser entretenimento e vira sequestro. A ideia parece absurda até a gente lembrar q...

O narrador não confiável que mora dentro da minha cabeça

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Existe um narrador não confiável morando dentro da minha cabeça. Ele fala com a minha voz, o que já é uma covardia. Usa minhas lembranças, meus traumas, minhas frases favoritas e, quando quer parecer especialmente convincente, ainda coloca tudo em tom de conclusão profunda. É ele que diz: “Você não está procrastinando. Está respeitando o tempo natural das coisas.” “Você não está evitando aquela conversa. Está preservando sua energia.” “Você não está com inveja. Só tem um senso de justiça muito apurado.” Um canalha sofisticado. Na literatura, o narrador não confiável é aquele que conta a história de um jeito torto. Às vezes mente. Às vezes se engana. Às vezes omite justamente a parte que explicaria tudo. Na vida, fazemos a mesma coisa, só que chamamos de “minha versão”. A minha versão, claro, costuma ser muito bem escrita. Nela, eu quase sempre estou cansado, incompreendido, tentando fazer o melhor possível dentro das circunstâncias. O que pode até ser verdade. Mas tam...