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Mostrando postagens de junho, 2026

Como escrever sem tempo: o método possível para escritores ocupados

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Nem todo mundo tem uma cabana no mato, três horas livres pela manhã, silêncio monástico e uma caneca fumegante ao lado do computador. Algumas pessoas têm boletos. Outras têm trabalho, filhos, reuniões, trânsito, pia, cachorro, ansiedade, WhatsApp da família e um corpo que, inexplicavelmente, insiste em sentir sono. Ainda assim, muitas dessas pessoas querem escrever. Um conto. Um romance. Um diário. Um livro que talvez nunca se venda, mas que começou a cobrar aluguel dentro da cabeça. A pergunta, então, não é: como escrever quando se tem tempo? Isso é relativamente fácil. Ou pelo menos mais fácil. A pergunta verdadeira é: como escrever quando a vida inteira parece organizada contra a escrita? A resposta curta é: você não precisa encontrar tempo. Você precisa fabricar um método possível. O mito do escritor com tempo livre Existe uma imagem muito sedutora do escritor: alguém sentado diante de uma janela, com o dia inteiro à disposição, sofrendo de maneira esteticamente aceitável....

Como começar a escrever um romance: primeiro, aceite escrever mal

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Todo mundo que quer escrever um romance, em algum momento, desenvolve uma fantasia bastante específica: a de começar certo. Não digo apenas começar bem. Começar certo mesmo. Com uma primeira frase definitiva, uma estrutura minimamente elegante, personagens que já entram em cena com conflitos internos, feridas de infância e uma voz própria. Um começo que pareça começo de livro publicado, não começo de arquivo chamado romance_final_agora_vai_3.docx. O problema é que essa fantasia costuma ser justamente o que impede o romance de existir. Porque começar um romance não é sentar para escrever literatura. Pelo menos não no início. Começar um romance é sentar para produzir uma quantidade razoável de frases suspeitas, cenas frágeis, diálogos que parecem terapia mal transcrita e descrições que provavelmente deveriam ser apagadas antes que alguém chame a polícia estilística. E tudo bem. Na verdade, mais do que tudo bem: é necessário. Antes de escrever bem, você precisa aceitar escrever mal...

Por onde começar a ler David Foster Wallace sem começar por Infinite Jest

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Há livros que parecem menos livros e mais provas de caráter.  Infinite Jest é um deles. Você olha para aquele tijolo, olha para a sua vida, olha novamente para o tijolo, e começa a suspeitar que talvez exista uma conspiração silenciosa entre editoras, leitores muito confiantes e pessoas que dizem “é difícil no começo, mas depois vai” com a mesma calma de quem recomenda uma trilha de seis dias sem banho. Eu amo David Foster Wallace . O que não significa que eu recomende começar por Infinite Jest . Na verdade, talvez amar um autor seja justamente isso: querer protegê-lo de seus fãs mais entusiasmados. E de seus livros mais assustadores. Porque existe um tipo de recomendação literária que funciona como batismo de guerra. A pessoa pergunta: "Por onde começo?" E alguém responde, sem piscar: "Começa pelo livro de mil páginas com notas de rodapé, dependência química, entretenimento letal, tênis competitivo, famílias quebradas, sátira cultural, tristeza americana e uma e...

Autobiografia, autoficção e autoetnografia: qual é a diferença?

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Toda vez que alguém escreve a partir da própria vida, está fazendo autobiografia? A resposta curta seria: não exatamente. A resposta mais honesta seria: depende do tamanho da confusão. Porque escrever a partir da própria vida nunca é apenas “contar o que aconteceu”. A vida, quando passa para o papel, muda de roupa. Ganha ritmo, corte, silêncio, exagero, vergonha. A lembrança que parecia sólida começa a desmanchar na mão. O episódio que parecia central fica pequeno. A cena lateral, aquela que ninguém fotografou, cresce até ocupar o livro inteiro. E então surgem essas palavras que às vezes parecem parentes próximos, mas não são a mesma coisa: autobiografia , autoficção e autoetnografia . Todas lidam com o “eu”. Mas cada uma desconfia dele de um jeito diferente. Autobiografia: quando a vida tenta virar relato A autobiografia é, talvez, a forma mais conhecida de escrita de si. Nela, uma pessoa conta a própria vida, geralmente tentando organizar a experiência em uma narrativa reco...

O entretenimento que mata

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Existe uma fantasia secreta em todo entretenimento: a de que ele consiga, por alguns minutos, nos libertar de nós mesmos. É por isso que a gente abre o TikTok sem querer abrir o TikTok. É por isso que um episódio vira três, que uma pesquisa inocente no YouTube vira uma investigação de quarenta minutos sobre um assunto que não nos interessava até oito segundos atrás. É por isso que às vezes a gente não assiste a alguma coisa porque quer, mas porque não consegue mais não assistir. David Foster Wallace entendeu isso antes de quase todo mundo. Em Infinite Jest , há um filme tão prazeroso, tão perfeitamente feito para o desejo humano, que quem assiste perde a vontade de fazer qualquer outra coisa. Não é apenas um filme bom. Não é uma obra-prima. É uma armadilha sensorial. O livro se refere a ele como “the Entertainment” 1 — o entretenimento definitivo, ou melhor, o entretenimento tão perfeito que deixa de ser entretenimento e vira sequestro. A ideia parece absurda até a gente lembrar q...

O narrador não confiável que mora dentro da minha cabeça

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Existe um narrador não confiável morando dentro da minha cabeça. Ele fala com a minha voz, o que já é uma covardia. Usa minhas lembranças, meus traumas, minhas frases favoritas e, quando quer parecer especialmente convincente, ainda coloca tudo em tom de conclusão profunda. É ele que diz: “Você não está procrastinando. Está respeitando o tempo natural das coisas.” “Você não está evitando aquela conversa. Está preservando sua energia.” “Você não está com inveja. Só tem um senso de justiça muito apurado.” Um canalha sofisticado. Na literatura, o narrador não confiável é aquele que conta a história de um jeito torto. Às vezes mente. Às vezes se engana. Às vezes omite justamente a parte que explicaria tudo. Na vida, fazemos a mesma coisa, só que chamamos de “minha versão”. A minha versão, claro, costuma ser muito bem escrita. Nela, eu quase sempre estou cansado, incompreendido, tentando fazer o melhor possível dentro das circunstâncias. O que pode até ser verdade. Mas tam...