O narrador não confiável que mora dentro da minha cabeça
Existe um narrador não confiável morando dentro da minha cabeça.
Ele fala com a minha voz, o que já é uma covardia. Usa minhas lembranças, meus traumas, minhas frases favoritas e, quando quer parecer especialmente convincente, ainda coloca tudo em tom de conclusão profunda.
É ele que diz:
“Você não está procrastinando. Está respeitando o tempo natural das coisas.”
“Você não está evitando aquela conversa. Está preservando sua energia.”
“Você não está com inveja. Só tem um senso de justiça muito apurado.”
Um canalha sofisticado.
Na literatura, o narrador não confiável é aquele que conta a história de um jeito torto. Às vezes mente. Às vezes se engana. Às vezes omite justamente a parte que explicaria tudo. Na vida, fazemos a mesma coisa, só que chamamos de “minha versão”.
A minha versão, claro, costuma ser muito bem escrita.
Nela, eu quase sempre estou cansado, incompreendido, tentando fazer o melhor possível dentro das circunstâncias. O que pode até ser verdade. Mas também pode ser apenas a forma elegante que encontrei para não dizer: tive medo, fui vaidoso, fugi, exagerei, não soube pedir desculpas.
Escrever, talvez, seja uma maneira de colocar esse narrador interno contra a parede.
Não para expulsá-lo. Ele mora ali faz tempo. Já deve ter direito adquirido. Mas para perguntar, com alguma firmeza:
“Foi assim mesmo?”
“Você não está escondendo uma parte?”
“Essa frase é honesta ou só ficou bonita?”
Porque o problema não é ter um narrador não confiável dentro da cabeça. O problema é deixar que ele escreva sozinho.
A escrita começa quando a gente desconfia da própria versão dos fatos.
E, nesse pequeno intervalo entre a desculpa e a verdade, às vezes aparece uma frase menos bonita, mas muito mais útil:
“Eu estava com medo.”
Já é alguma coisa.
