O entretenimento que mata

Existe uma fantasia secreta em todo entretenimento: a de que ele consiga, por alguns minutos, nos libertar de nós mesmos.

É por isso que a gente abre o TikTok sem querer abrir o TikTok. É por isso que um episódio vira três, que uma pesquisa inocente no YouTube vira uma investigação de quarenta minutos sobre um assunto que não nos interessava até oito segundos atrás. É por isso que às vezes a gente não assiste a alguma coisa porque quer, mas porque não consegue mais não assistir.

David Foster Wallace entendeu isso antes de quase todo mundo.

Em Infinite Jest, há um filme tão prazeroso, tão perfeitamente feito para o desejo humano, que quem assiste perde a vontade de fazer qualquer outra coisa. Não é apenas um filme bom. Não é uma obra-prima. É uma armadilha sensorial. O livro se refere a ele como “the Entertainment”1 — o entretenimento definitivo, ou melhor, o entretenimento tão perfeito que deixa de ser entretenimento e vira sequestro.

A ideia parece absurda até a gente lembrar que o absurdo envelheceu muito bem.

Porque Wallace não estava escrevendo exatamente sobre um cartucho de vídeo assassino. Ele estava escrevendo sobre uma sociedade que confundiu liberdade com disponibilidade infinita de prazer. E talvez essa seja uma das grandes crueldades modernas: nunca fomos tão livres para escolher o que ver, ouvir, comprar, seguir, rolar, salvar, maratonar, favoritar — e, ao mesmo tempo, nunca pareceu tão difícil simplesmente querer alguma coisa por conta própria.

O filme letal de Infinite Jest não mata porque machuca. Mata porque agrada.

Esse é o ponto mais terrível.

A violência não vem como violência. Vem como conforto. Vem como recomendação personalizada. Vem como “só mais um”. Vem como autoplay. Vem com aquela delicadeza algorítmica de quem parece conhecer melhor o nosso cansaço do que nós mesmos.

Em certo momento do livro, Marathe formula uma das imagens mais brutais da obra: pessoas dispostas a morrer pela chance de serem alimentadas até a morte pelo prazer, “with spoons”2. De colherzinha.

É uma imagem ridícula e horrível. Como quase tudo que Wallace faz bem.

Porque não é o prazer selvagem, dionisíaco, transgressor. Não é a orgia, a droga, o excesso cinematográfico. É a colherzinha. É o prazer administrado em porções pequenas, repetidas, domésticas. O prazer entregue na boca, sem que o corpo precise se levantar.

E aí fica difícil não pensar na nossa vida de tela.

O problema não é gostar de série. Não é rir de vídeo curto. Não é assistir a um reality show ruim depois de um dia cansativo. Seria muito fácil, e também bastante chato, transformar Infinite Jest numa bronca moralista contra o entretenimento. Wallace era inteligente demais para isso. O livro é, ele mesmo, absurdamente divertido. Cheio de piadas, vozes, cenas grotescas, exageros, pequenas performances de virtuosismo.

A questão é outra: o que acontece quando o entretenimento deixa de ser intervalo e passa a ser estrutura?

Quando ele não ocupa mais o descanso, mas substitui a vontade?

Quando o prazer não nos devolve ao mundo, mas nos convence de que o mundo é que era o problema?

O vício, em Infinite Jest, não é apenas o vício em substâncias. É o vício em não estar presente. Em sair de si. Em trocar a dor específica da vida por uma anestesia geral. Às vezes essa anestesia vem em forma de droga. Às vezes vem em forma de esporte, performance, inteligência, televisão, piada, sexo, fama, talento. Hoje talvez venha também em forma de feed.

A dopamina virou uma palavra meio cansada, quase uma desculpa científica para tudo. Mas há algo importante aí: certos sistemas são desenhados para vencer a nossa resistência. Não para nos informar. Não para nos alimentar. Não para nos tornar mais livres. Mas para capturar atenção pelo maior tempo possível. A máquina não precisa odiar você para destruir sua vontade. Basta que ela seja excelente em agradar.

Essa é a genialidade sombria de Infinite Jest: imaginar um entretenimento tão bom que se torna incompatível com a vida.

Porque a vida, coitada, é mal editada.

A vida tem pausas constrangedoras. Tem conversas que não chegam a lugar nenhum. Tem banho para tomar, boleto para pagar, louça com cheiro estranho, mensagem que precisamos responder, corpo que envelhece, pessoas que não reagem como personagens. A vida não tem algoritmo interessado em manter nosso engajamento. Ela nos pede justamente o contrário: atenção difícil, presença imperfeita, tolerância ao tédio.

E talvez por isso o entretenimento perfeito seja tão perigoso. Ele promete uma experiência sem atrito. Só que o atrito é uma das coisas que ainda nos mantém vivos.

Wallace parecia obcecado com essa tensão: o entretenimento como alívio e como ameaça. Não por acaso, Infinite Jest é um livro sobre dependência, mas também é um livro construído para nos tornar dependentes dele. A gente entra naquilo reclamando do tamanho, das notas, das interrupções, das siglas, da estrutura quebrada — e, quando percebe, está procurando mais uma página, mais uma voz, mais uma cena absurda, mais uma explicação que talvez nunca venha.

O livro critica o vício enquanto nos oferece uma pequena experiência de vício literário.

Essa contradição não é um defeito. É o método.

A gente sabe que está sendo capturado. E continua.

A gente sabe que não queria ficar tanto tempo ali. E fica.

A gente sabe que aquele prazer não resolve exatamente nada. Mas ele resolve por três segundos. E três segundos, repetidos muitas vezes, já são uma vida.

Talvez Infinite Jest assuste tanto porque o filme letal do romance não parece mais uma fantasia distante. Parece apenas a versão honesta de uma promessa que já aceitamos em doses menores: nunca ficar sozinho com a própria cabeça, nunca sentir o peso inteiro de uma tarde, nunca atravessar o desconforto sem abrir uma janela, uma aba, um vídeo, um ruído.

O entretenimento que mata não precisa matar o corpo.

Às vezes basta matar a vontade.

Basta fazer com que escolher pareça esforço demais. Que desejar pareça antigo. Que o silêncio pareça uma falha técnica. Que a vida, sem mediação, pareça baixa resolução.

E talvez a pergunta de Wallace não seja “por que gostamos tanto de nos distrair?”

A pergunta é pior:

o que em nós está tão cansado que aceitaria ser alimentado até desaparecer?


  1. Em Infinite Jest, “the Entertainment” é uma das formas usadas para se referir ao filme/cópia letal associado a James Incandenza. O objeto também circula no romance como Infinite Jest, criando uma espécie de espelho entre o título do livro e o entretenimento mortal dentro da própria narrativa. ↩︎

  2. A imagem da alimentação “with spoons” aparece ligada à crítica de Marathe à cultura do prazer e à disposição de certas pessoas de se entregarem completamente ao entretenimento. A força da passagem está justamente no contraste entre uma morte terrível e uma imagem quase infantil de cuidado. ↩︎