Por onde começar a ler David Foster Wallace sem começar por Infinite Jest

Há livros que parecem menos livros e mais provas de caráter. Infinite Jest é um deles.

Você olha para aquele tijolo, olha para a sua vida, olha novamente para o tijolo, e começa a suspeitar que talvez exista uma conspiração silenciosa entre editoras, leitores muito confiantes e pessoas que dizem “é difícil no começo, mas depois vai” com a mesma calma de quem recomenda uma trilha de seis dias sem banho.

Eu amo David Foster Wallace. O que não significa que eu recomende começar por Infinite Jest.

Na verdade, talvez amar um autor seja justamente isso: querer protegê-lo de seus fãs mais entusiasmados. E de seus livros mais assustadores.

Porque existe um tipo de recomendação literária que funciona como batismo de guerra. A pessoa pergunta:

"Por onde começo?"

E alguém responde, sem piscar:

"Começa pelo livro de mil páginas com notas de rodapé, dependência química, entretenimento letal, tênis competitivo, famílias quebradas, sátira cultural, tristeza americana e uma estrutura narrativa que às vezes parece montada por um arquiteto brilhante durante uma crise de labirintite."

Isso não é uma recomendação. É um sequestro.

Então, por onde começar a ler David Foster Wallace?

Comece pequeno. Não por covardia. Por estratégia. David Foster Wallace não é difícil apenas porque escreve frases longas, usa notas de rodapé e parece ter uma alergia moral à simplicidade falsa. Ele é difícil porque quer fazer uma coisa meio impossível: pensar e sentir ao mesmo tempo.

Muita gente escreve bem sobre inteligência. Muita gente escreve bem sobre dor.

Wallace, nos melhores momentos, escreve sobre o momento exato em que a inteligência deixa de proteger alguém da dor. É aí que ele fica perigoso. E é por isso que começar por Infinite Jest pode ser como entrar numa casa pela chaminé. Você até entra, mas provavelmente vai sair coberto de fuligem e ressentimento.

1. Comece por This is Water

A melhor porta de entrada para David Foster Wallace talvez seja This is Water.

Sim, é curto. Sim, é famoso. Sim, já virou aquele tipo de texto que circula pela internet em forma de conselho existencial, vídeo motivacional e legenda de gente que acordou cedo demais para correr na praia. Mas ainda assim funciona.

Ou talvez funcione justamente porque é curto o suficiente para não assustar e profundo o bastante para deixar uma pequena farpa de desconforto.

Eu voltei a This is Water muitas vezes ao longo dos anos. Às vezes como livro, às vezes como áudio, às vezes como quem volta a uma torneira para ver se a água ainda está lá.

E acho que essa repetição diz alguma coisa.

This is Water não é exatamente “um livro para entender David Foster Wallace”. É mais um manual de sobrevivência ao próprio cérebro. Um texto sobre atenção, escolha, irritação cotidiana, egoísmo automático e aquela pequena tragédia doméstica de estar vivo dentro da própria cabeça.

Ele não exige que você entenda todos os truques do autor. Só pede que você reconheça uma coisa simples e humilhante: a mente humana é uma máquina de transformar fila de supermercado em tese sobre injustiça cósmica.

Começar por aqui é bom porque Wallace ainda não está tentando construir uma catedral.

Está só apontando para um copo d’água e dizendo: olha de novo.

2. Depois leia um ensaio

Depois de This is Water, eu iria para os ensaios.

Wallace era um romancista extraordinário, mas talvez seja nos ensaios que ele se torna mais acessível sem ficar menor. É ali que aparece o observador quase insuportável: o sujeito que olha para uma feira, um cruzeiro, um jogo de tênis, uma lagosta ou uma convenção qualquer e não consegue deixar a superfície em paz.

A superfície, para ele, é sempre suspeita.

Ensaios como Hablemos de langostas ou El tenis como experiencia religiosa mostram como Wallace conseguia transformar temas aparentemente laterais em investigações sobre prazer, ética, corpo, consumo, genialidade, crueldade e televisão interna da mente.

O ensaio é uma boa segunda etapa porque oferece Wallace com corrimão.

Você ainda encontra as digressões, as frases que dobram a esquina e continuam andando, a sensação de que ele não quer apenas explicar uma coisa, mas explicar por que explicar essa coisa talvez seja moralmente suspeito. Só que existe um assunto concreto segurando tudo.

Uma lagosta. Um tenista. Um evento. Uma cena.

O romance, muitas vezes, exige que você aceite o labirinto antes de saber se há um minotauro. O ensaio pelo menos te mostra a placa de entrada.

3. Leia os contos, mas com cuidado

Depois eu passaria pelos contos. Não todos de uma vez. Wallace em conto pode ser mais estranho do que Wallace em romance, porque ali ele não tem a desculpa da imensidão. O estranhamento vem concentrado, como café que alguém esqueceu no fogo.

Girl with Curious Hair, por exemplo, não é necessariamente o lugar mais gentil para começar, mas é um bom lugar para perceber que Wallace não era apenas o autor sério da tristeza contemporânea.

Ele também era engraçado. Deformado. Pop. Cruel. Excessivo. Às vezes irritante. Às vezes brilhante de um jeito que dá quase raiva.

Ler os contos ajuda a entender uma coisa importante: DFW não é apenas “o escritor das notas de rodapé”.

Essa é uma caricatura conveniente. Como dizer que Kafka é “o escritor do homem que vira inseto” ou que Proust é “o escritor do bolinho”.

As notas de rodapé importam, claro. Mas o centro da coisa está em outro lugar: na tentativa de mostrar uma consciência funcionando enquanto funciona. Não depois, já limpa, organizada, pronta para parecer profunda. Mas durante.

Com ruído. Vergonha. Distração. Com pensamento interrompendo sentimento e sentimento contaminando pensamento.

4. Só então considere Infinite Jest

Chegamos ao monstro. Infinite Jest talvez seja o livro mais famoso de David Foster Wallace e, ao mesmo tempo, o maior motivo pelo qual muita gente nunca lê David Foster Wallace.

Eu li Infinite Jest mais de uma vez. Isso não me torna especialista. Torna-me, no máximo, reincidente.

E reincidência literária é uma categoria delicada. Às vezes significa amor. Às vezes significa que você ainda está tentando entender o que aconteceu com você da primeira vez.

Infinite Jest é um livro sobre entretenimento, vício, família, solidão, linguagem, esporte, dependência, depressão, televisão, Estados Unidos, fracasso e a vontade humana de escapar da própria vontade.

Mas descrevê-lo assim é quase inútil.

É como dizer que o oceano é uma quantidade grande de água com peixes dentro.

O problema de começar por Infinite Jest não é apenas o tamanho. O problema é que ele exige uma confiança inicial muito grande. Você precisa aceitar ficar perdido. Precisa aceitar que algumas partes parecem mais engraçadas depois, outras parecem importantes antes de serem compreensíveis, e algumas talvez existam justamente para testar a sua necessidade de recompensa imediata.

O que é irônico, porque o livro também fala sobre isso.

Começar por Infinite Jest é possível. Há pessoas que fazem isso e sobrevivem. Algumas até voltam para contar.

Mas eu não começaria por ele.

Eu chegaria nele como quem chega a uma cidade depois de já conhecer o idioma, alguns costumes locais e pelo menos duas formas educadas de pedir socorro.

5. E The Pale King?

The Pale King é outro caso.

É um livro inacabado, o que já muda tudo. Ler um livro inacabado é sempre entrar num prédio sabendo que algumas escadas terminam no ar. Mas talvez isso combine com Wallace.

The Pale King é, em parte, um livro sobre tédio. Não aquele tédio charmoso, meio francês, que dá vontade de fumar na janela. Mas o tédio administrativo, fiscal, burocrático, o tédio de formulários, escritórios, rotinas e atenção forçada. E Wallace faz uma coisa quase obscena: tenta encontrar heroísmo nisso.

Não recomendo como começo. Mas recomendo como continuação para quem já entendeu que, em Wallace, o tema nunca é apenas o tema. Tênis não é só tênis. Lagosta não é só lagosta. Entretenimento não é só entretenimento. Tédio não é só tédio. Nada é só nada, o que é muito bonito e, dependendo do dia, absolutamente exaustivo.

Minha ordem sugerida para começar David Foster Wallace

Se alguém me perguntasse hoje “por onde começar?”, eu diria:

  1. This is Water
  2. Um ensaio, como Hablemos de langostas ou El tenis como experiencia religiosa
  3. Infinite Jest
  4. The Pale King

Não porque essa seja a ordem correta. A literatura não é um curso com pré-requisitos. Ninguém precisa apresentar certificado de This is Water para entrar em Infinite Jest.

Mas essa ordem respeita uma aproximação. Primeiro a voz. Depois o pensamento, o laboratório, o abismo, os escombros.

O erro é transformar Wallace em teste de inteligência

Existe uma forma muito chata de gostar de David Foster Wallace.

Ela envolve transformar a leitura em desempenho. Como se ler Wallace fosse uma medalha, um certificado de complexidade mental, uma prova de que a pessoa não se contenta com narrativas fáceis.

Isso é uma armadilha. E, pior, uma armadilha pouco wallaceana.

Porque boa parte da obra dele parece justamente desconfiar desse tipo de vaidade: a inteligência como armadura, a ironia como esconderijo, a complexidade como desculpa para não dizer “estou com medo”, “estou sozinho”, “não sei como viver”.

Ler David Foster Wallace não deveria servir para você se sentir mais inteligente do que os outros. Deveria servir para desconfiar um pouco mais da sua própria inteligência. O que é muito menos agradável.

Por que ainda vale a pena ler David Foster Wallace?

Porque ele percebeu cedo uma doença que só piorou. A dificuldade de prestar atenção. A transformação de tudo em entretenimento. A solidão hiperconectada. O prazer como anestesia. A ironia como defesa permanente.

A sensação de que a consciência moderna é um quarto cheio de telas acesas, e que em algum lugar, debaixo de todas elas, existe uma pessoa tentando pedir ajuda sem parecer ridícula.

Wallace pode ser excessivo. Pode ser difícil. Pode ser irritante. Pode ser um autor que exige do leitor mais paciência do que muitos leitores estão dispostos a oferecer — e tudo bem. Ninguém é obrigado a gostar de um escritor como quem paga promessa.

Mas, quando ele funciona, ele faz uma coisa rara. Ele captura aquele instante em que a mente percebe que não consegue se salvar sozinha. E talvez seja por isso que eu tenha voltado tantas vezes.

Não porque ele seja confortável. Mas porque algumas leituras não são exatamente lugares para morar. São lugares para visitar quando o mundo ficou simples demais nas explicações e complicado demais na experiência.

David Foster Wallace não resolve isso. Mas ele descreve o problema com uma precisão que, às vezes, parece companhia. E companhia, dependendo do dia, já é bastante.

Resumo: melhor livro para começar David Foster Wallace

Para quem quer começar a ler David Foster Wallace, eu não recomendo começar por Infinite Jest. A melhor porta de entrada é This is Water, por ser curto, direto e apresentar algumas das principais obsessões do autor: atenção, consciência, egoísmo cotidiano e a dificuldade de viver dentro da própria cabeça.

Depois, vale seguir para os ensaios, alguns contos e só então encarar Infinite Jest.

A ordem que eu recomendo é:

  1. This is Water
  2. Ensaios
  3. Contos
  4. Infinite Jest
  5. The Pale King

Não é uma regra. É só uma forma de entrar na casa pela porta. E, com Wallace, isso já ajuda bastante.