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Por onde começar a ler David Foster Wallace sem começar por Infinite Jest

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Há livros que parecem menos livros e mais provas de caráter.  Infinite Jest é um deles. Você olha para aquele tijolo, olha para a sua vida, olha novamente para o tijolo, e começa a suspeitar que talvez exista uma conspiração silenciosa entre editoras, leitores muito confiantes e pessoas que dizem “é difícil no começo, mas depois vai” com a mesma calma de quem recomenda uma trilha de seis dias sem banho. Eu amo David Foster Wallace . O que não significa que eu recomende começar por Infinite Jest . Na verdade, talvez amar um autor seja justamente isso: querer protegê-lo de seus fãs mais entusiasmados. E de seus livros mais assustadores. Porque existe um tipo de recomendação literária que funciona como batismo de guerra. A pessoa pergunta: "Por onde começo?" E alguém responde, sem piscar: "Começa pelo livro de mil páginas com notas de rodapé, dependência química, entretenimento letal, tênis competitivo, famílias quebradas, sátira cultural, tristeza americana e uma e...

O entretenimento que mata

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Existe uma fantasia secreta em todo entretenimento: a de que ele consiga, por alguns minutos, nos libertar de nós mesmos. É por isso que a gente abre o TikTok sem querer abrir o TikTok. É por isso que um episódio vira três, que uma pesquisa inocente no YouTube vira uma investigação de quarenta minutos sobre um assunto que não nos interessava até oito segundos atrás. É por isso que às vezes a gente não assiste a alguma coisa porque quer, mas porque não consegue mais não assistir. David Foster Wallace entendeu isso antes de quase todo mundo. Em Infinite Jest , há um filme tão prazeroso, tão perfeitamente feito para o desejo humano, que quem assiste perde a vontade de fazer qualquer outra coisa. Não é apenas um filme bom. Não é uma obra-prima. É uma armadilha sensorial. O livro se refere a ele como “the Entertainment” 1 — o entretenimento definitivo, ou melhor, o entretenimento tão perfeito que deixa de ser entretenimento e vira sequestro. A ideia parece absurda até a gente lembrar q...

O mapa não é o território

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Uma das cenas mais curiosas de Infinite Jest  acontece em um campo de tênis. Um grupo de estudantes da academia Enfield joga um jogo chamado Eschaton. O campo é transformado em um mapa do mundo desenhado no chão. Cada jogador representa uma potência nuclear. Bolas de tênis são usadas como mísseis. Há regras complexas, cálculos, tratados, escalas de destruição. É um jogo meticuloso. Quase científico. Até que uma coisa simples acontece. Um dos jogadores esquece uma regra fundamental: o mapa não é o território. A frase, que vem da teoria semântica de Alfred Korzybski, significa algo muito simples e muito profundo ao mesmo tempo: qualquer representação da realidade — um mapa, um modelo, uma teoria — é apenas uma aproximação. Nunca é a própria realidade. No jogo Eschaton, os jogadores deveriam sempre lembrar disso. O mapa desenhado no chão representa o mundo, mas não é o mundo. Por isso, quando um ataque acontece em um ponto do mapa, os jogadores não devem reagir fisicamente como ...