Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Processo Criativo

Como começar a escrever um romance: primeiro, aceite escrever mal

Imagem
Todo mundo que quer escrever um romance, em algum momento, desenvolve uma fantasia bastante específica: a de começar certo. Não digo apenas começar bem. Começar certo mesmo. Com uma primeira frase definitiva, uma estrutura minimamente elegante, personagens que já entram em cena com conflitos internos, feridas de infância e uma voz própria. Um começo que pareça começo de livro publicado, não começo de arquivo chamado romance_final_agora_vai_3.docx. O problema é que essa fantasia costuma ser justamente o que impede o romance de existir. Porque começar um romance não é sentar para escrever literatura. Pelo menos não no início. Começar um romance é sentar para produzir uma quantidade razoável de frases suspeitas, cenas frágeis, diálogos que parecem terapia mal transcrita e descrições que provavelmente deveriam ser apagadas antes que alguém chame a polícia estilística. E tudo bem. Na verdade, mais do que tudo bem: é necessário. Antes de escrever bem, você precisa aceitar escrever mal...

Autobiografia, autoficção e autoetnografia: qual é a diferença?

Imagem
Toda vez que alguém escreve a partir da própria vida, está fazendo autobiografia? A resposta curta seria: não exatamente. A resposta mais honesta seria: depende do tamanho da confusão. Porque escrever a partir da própria vida nunca é apenas “contar o que aconteceu”. A vida, quando passa para o papel, muda de roupa. Ganha ritmo, corte, silêncio, exagero, vergonha. A lembrança que parecia sólida começa a desmanchar na mão. O episódio que parecia central fica pequeno. A cena lateral, aquela que ninguém fotografou, cresce até ocupar o livro inteiro. E então surgem essas palavras que às vezes parecem parentes próximos, mas não são a mesma coisa: autobiografia , autoficção e autoetnografia . Todas lidam com o “eu”. Mas cada uma desconfia dele de um jeito diferente. Autobiografia: quando a vida tenta virar relato A autobiografia é, talvez, a forma mais conhecida de escrita de si. Nela, uma pessoa conta a própria vida, geralmente tentando organizar a experiência em uma narrativa reco...

O narrador não confiável que mora dentro da minha cabeça

Imagem
Existe um narrador não confiável morando dentro da minha cabeça. Ele fala com a minha voz, o que já é uma covardia. Usa minhas lembranças, meus traumas, minhas frases favoritas e, quando quer parecer especialmente convincente, ainda coloca tudo em tom de conclusão profunda. É ele que diz: “Você não está procrastinando. Está respeitando o tempo natural das coisas.” “Você não está evitando aquela conversa. Está preservando sua energia.” “Você não está com inveja. Só tem um senso de justiça muito apurado.” Um canalha sofisticado. Na literatura, o narrador não confiável é aquele que conta a história de um jeito torto. Às vezes mente. Às vezes se engana. Às vezes omite justamente a parte que explicaria tudo. Na vida, fazemos a mesma coisa, só que chamamos de “minha versão”. A minha versão, claro, costuma ser muito bem escrita. Nela, eu quase sempre estou cansado, incompreendido, tentando fazer o melhor possível dentro das circunstâncias. O que pode até ser verdade. Mas tam...

O primeiro rascunho como crime contra a humanidade

Imagem
Todo primeiro rascunho deveria vir com aviso de conteúdo sensível. Não porque seja ofensivo, embora às vezes seja. Não porque seja perigoso, embora possa destruir a autoestima de um adulto funcional em menos de três parágrafos. Mas porque o primeiro rascunho é uma espécie de criatura recém-saída do pântano: respira, existe, tem alguma intenção de vida, mas ainda não deveria ser apresentado à sociedade. O erro está em achar que o primeiro rascunho precisa ser bom. Não precisa. Na verdade, quase desconfio de primeiros rascunhos bons. Eles parecem pessoas educadas demais em festa de família: alguma coisa estão escondendo. O primeiro rascunho é o lugar onde a frase nasce torta, o argumento manca, a metáfora pega fogo e o autor escreve “desenvolver melhor isso aqui” como quem deixa um bilhete para uma versão futura de si mesmo — uma versão que, evidentemente, também estará cansada. E tudo bem. Porque escrever não é produzir beleza imediatamente. Escrever é primeiro cometer um pequ...

A maternidade sem documento

Imagem
Em la Margarita , há uma cena de aniversário que me acompanha de um jeito estranho. Não é uma cena grandiosa. Não tem festa, não tem abundância, não tem epifania cinematográfica. Tem um bolinho de chocolate pequeno demais, uma vela branca grossa demais, daquelas que se usam quando falta luz, e uma menina que, aos catorze anos, já aprendeu a não esperar muita coisa do próprio aniversário. Margarita diz que nunca se empolgava com estas datas. Em casa, Mamá fazia o mínimo possível. Assava um bolo, reunia os irmãos, aplaudia baixo. Quase inaudível. Como se aquele gesto fosse mais uma obrigação do que um ato de carinho. E talvez seja isso que doa na cena. Não é a ausência completa do cuidado. É o cuidado pela metade. O cuidado sem calor. O gesto que existe, mas não chega. Logo depois, Margarita encontra la Ofélia, e o dia muda de temperatura. As duas vão ao clube, assistem ao jogo de basquete, treinam, correm, riem, roubam frutas secas da cozinha da igreja e fogem da mulher do pastor com...

Quando o narrador mente porque precisa sobreviver

Imagem
Nem toda mentira na literatura é um truque. Às vezes, quando pensamos em narradores não confiáveis, pensamos em um jogo. O autor esconde uma informação, o leitor desconfia, as pistas aparecem aos poucos e, no final, descobrimos que fomos enganados. É uma máquina muito bonita, quase um relógio narrativo. Mas há outro tipo de mentira que me interessa mais. A mentira que não existe para enganar o leitor, mas para proteger quem está contando a história. Porque algumas pessoas não conseguem dizer a verdade de uma vez. Não porque sejam necessariamente más. Não porque sejam manipuladoras. Mas porque a verdade, em estado puro, talvez fosse insuportável. Existem narradores que mentem como quem coloca a mão na frente do rosto antes de apanhar. Mentem para diminuir o impacto. Mentem para reorganizar o passado. Mentem para continuar de pé. Penso, por exemplo, em certos narradores que contam a própria vida como se estivessem sempre tentando se absolver. Eles escolhem as palavras com cuidado d...

Escrever a mãe sem transformar a mãe em santa

Imagem
Escrever sobre a própria mãe é entrar em uma casa onde todas as portas rangem. Não porque haja algo necessariamente sombrio ali. Mas porque tudo faz barulho. Uma lembrança encosta na outra. Um gesto antigo puxa uma frase. Uma frase puxa uma culpa. Uma culpa puxa uma cena que talvez nem tenha acontecido exatamente daquele jeito, mas que ficou guardada como se tivesse. A mãe, na literatura, costuma correr dois riscos: virar santa ou virar ré. De um lado, a mãe perfeita. A mulher que sofreu, amou, cuidou, renunciou, sustentou o mundo em silêncio e, por isso, passa a ser colocada num altar. Do outro, a mãe culpada. A origem de todos os traumas, de todas as faltas, de todas as rachaduras do filho. Nenhuma das duas me interessa muito. A santa é imóvel demais. A ré é simples demais. Uma mãe, antes de ser mãe, é uma pessoa. E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de escrever. Porque, para o filho, a mãe quase sempre nasce junto com ele. É como se ela começasse a existir no momen...

O filho que escreve a mãe

Imagem
Há um gesto delicado, quase perigoso, em escrever sobre a própria mãe. Não perigoso porque falte amor. Talvez justamente o contrário. Perigoso porque existe amor demais, proximidade demais, memória demais. A mãe é uma figura tão próxima que às vezes se torna invisível. Ela está no começo de tudo: no corpo, na língua, na comida, no medo, no modo como a gente segura uma xícara, na maneira como pedimos desculpas, no tipo de tristeza que aprendemos a reconhecer como nossa. E talvez por isso seja tão difícil transformá-la em literatura. A mãe, para o filho, costuma aparecer primeiro como função. Ela cuida. Ela protege. Ela reclama. Ela trabalha. Ela prepara alguma coisa. Ela espera. Ela se irrita. Ela diz para levar blusa. Ela é presença, cobrança, abrigo, limite, culpa. Durante muito tempo, talvez a gente nem perceba que há uma pessoa ali. Uma pessoa inteira. Foi isso que mais me atravessou em Lutas e metamorfoses de uma mulher   1 , de Édouard Louis. O livro parece nascer de um...

Histórias pequenas, verdades grandes

Imagem
Há uma coisa que sempre me impressionou no trabalho da The Mountain Goats . Muitas das músicas da banda parecem pequenas histórias. Não histórias grandiosas, cheias de acontecimentos extraordinários, mas fragmentos de vida: uma conversa, uma lembrança, um objeto, um momento que passou quase despercebido. Ainda assim, esses fragmentos carregam uma força emocional enorme. A literatura, às vezes, funciona do mesmo jeito. Durante muito tempo, acreditou-se que boas histórias precisavam de grandes acontecimentos. Guerras, aventuras, viagens, conflitos dramáticos. Mas existe outro tipo de narrativa que trabalha em uma escala diferente: a escala da memória. As músicas do The Mountain Goats, especialmente as escritas por John Darnielle , frequentemente parecem diários cantados. Elas falam de casas, de famílias, de adolescência, de pequenas derrotas e pequenas sobrevivências. São histórias íntimas, mas que acabam dizendo algo universal. Esse tipo de narrativa sempre me interessou. Quando com...

O parágrafo que resiste

Imagem
Todo escritor conhece esse momento. Você começa um texto com alguma confiança. As primeiras frases aparecem com certa facilidade. Uma ideia leva à outra. O texto parece estar se formando quase sozinho. E então chega um ponto em que tudo para. Não é exatamente falta de ideias. Também não é falta de palavras. É outra coisa. É como se o texto tivesse chegado a um lugar onde simplesmente não quer avançar. O parágrafo resiste. Você tenta escrever de um jeito. Não funciona. Apaga. Tenta de novo. Troca uma palavra, muda a ordem da frase, acrescenta alguma explicação. Ainda assim, o parágrafo continua estranho, pesado, artificial. Esse é um dos momentos mais curiosos da escrita. Porque, na maior parte das vezes, o problema não está na frase. O problema está no pensamento que ainda não terminou de acontecer. Escrever é frequentemente apresentado como um ato de expressão, mas muitas vezes é exatamente o contrário. Nós não escrevemos porque já sabemos o que pensamos. Escrevemos para desco...