Os Tempos Invisíveis da Escrita
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| Metamorphosis by Franz Kafka- Low Stock |
Existe uma fotografia mental que todos reconhecem: um escritor sentado à mesa, um cinzeiro cheio, uma xícara de café esquecida, e um cigarro aceso entre os dedos.
Durante muito tempo essa imagem foi quase um clichê da literatura. Kafka fumava. Sartre fumava. Cortázar fumava. Clarice Lispector fumava. É difícil olhar para fotografias de escritores do século XX sem encontrar alguma espiral de fumaça atravessando o quadro.
Mas a pergunta interessante nunca foi por que os escritores fumam.
A pergunta é outra: o que o cigarro representava naquele momento de escrita?
Porque, se pensarmos bem, o cigarro nunca escreveu uma frase.
O que ele fazia era outra coisa.
O cigarro cria um pequeno intervalo dentro do tempo. Acender, puxar, observar a fumaça, apagar — tudo isso dura poucos minutos. É um gesto simples, repetitivo, quase ritualístico. E rituais têm uma função muito particular: eles organizam a espera.
Escrever envolve muito esperar.
Esperar a frase aparecer.
Esperar a ideia se organizar.
Esperar o parágrafo parar de resistir.
Durante essa espera, o corpo fica sem função clara. Não estamos exatamente trabalhando, mas também não estamos descansando. É um estado estranho, meio suspenso.
O cigarro resolve esse problema de forma elegante: ele dá ao corpo algo para fazer enquanto a mente trabalha.
Talvez seja por isso que tantos escritores fumavam. Não pela nicotina, mas pelo ritmo.
O gesto de fumar cria uma pausa legítima. Você pode olhar pela janela sem parecer que está procrastinando. Pode ficar alguns minutos em silêncio sem a sensação de que deveria estar produzindo alguma coisa.
Em outras palavras, o cigarro oferecia uma desculpa física para um fenômeno que todo escritor conhece: o tempo invisível da escrita.
Hoje muita gente já não fuma — felizmente. Mas, curiosamente, os rituais continuam existindo. Alguns caminham. Outros fazem café. Outros ainda reorganizam livros na estante ou ficam olhando para a tela sem digitar nada.
A função é sempre a mesma.
Criar pequenas estruturas para atravessar o vazio entre uma frase e outra.
No fundo, talvez o cigarro nunca tenha sido sobre fumar.
Talvez tenha sido apenas uma maneira de ficar parado enquanto algo estava sendo escrito por dentro.
