O primeiro amor como uma ferida que aprende a escrever
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| Imagem gerada pelo ChatGPT. |
Há livros que não parecem ter sido escritos para contar uma história. Parecem ter sido escritos porque uma história, depois de muitos anos, continuou batendo do lado de dentro.
Mentiras que contamos, de Philippe Besson, me parece um desses livros.
A trama começa com um tipo de assombração muito simples: um rosto. O narrador vê um homem jovem que lembra Thomas, seu primeiro amor, e essa semelhança abre uma porta no tempo. Não é uma lembrança organizada. Não é uma nostalgia educada. É uma invasão. De repente, o passado volta com a violência das coisas que nunca foram completamente enterradas.
E talvez seja isso que mais me interessa no livro: a ideia de que o primeiro amor não termina exatamente. Ele muda de estado físico.
Primeiro é corpo.
Depois é ausência.
Depois é memória.
Depois, se houver sorte — ou condenação — vira literatura.
Thomas não é apenas uma pessoa amada. Ele é também um lugar. Um lugar onde o narrador descobriu o desejo, o medo, a vergonha, a felicidade clandestina. Porque esse amor não podia existir em voz alta. Ele precisava caber nos intervalos, nos quartos, nos silêncios, nas coisas não ditas. E há uma violência muito específica nisso: quando o amor só pode acontecer escondido, ele já nasce com uma espécie de luto dentro.
Não é só a história de dois jovens que se amam. É a história de dois jovens tentando entender o que podem ser num mundo que já decidiu, antes deles, o que eles não deveriam ser.
Por isso, o primeiro amor em Besson não aparece como aquela coisa luminosa, limpa, de álbum de fotografia. Ele aparece como uma ferida. Mas uma ferida sofisticada, insistente, que não aceita desaparecer. Ela vai amadurecendo junto com o narrador. Vai ganhando linguagem. Vai deixando de ser apenas dor bruta para virar frase.
E talvez escrever seja exatamente isso: dar forma ao que, enquanto era vivido, não tinha forma nenhuma.
A literatura chega tarde. Mas chega com uma vantagem: ela pode dizer aquilo que, no momento da vida, era impossível dizer. Ela pode voltar para o quarto, para a escola, para o corpo do outro, para o medo do outro, para o próprio medo — e reorganizar tudo não para corrigir o passado, mas para torná-lo legível.
Porque o passado, sozinho, é confuso.
A memória é confusa.
O desejo é confuso.
A juventude é uma sequência de acontecimentos que a gente só entende depois, quando já não pode fazer quase nada com eles.
Em Mentiras que contamos, Besson escreve como quem tenta tocar uma cicatriz sem fingir que ela desapareceu. Há algo de delicado nisso, mas também de brutal. O livro não transforma o primeiro amor em monumento. Também não transforma Thomas em vilão simples. O que existe ali é mais triste: duas pessoas presas dentro de uma época, de uma sociedade, de uma ideia de masculinidade, de família, de futuro.
Algumas mentiras são individuais. Outras são sociais.
Há a mentira que uma pessoa conta para esconder o que sente.
E há a mentira maior, anterior, que diz a essa pessoa que aquilo que ela sente precisa ser escondido.
É por isso que o título me parece tão forte. As mentiras que contamos não são apenas as mentiras que contamos aos outros. São também as que contamos para continuar funcionando. Para não perder a família. Para não perder o lugar no mundo. Para não encarar o próprio desejo. Para sobreviver a uma verdade que, em determinado momento, parece grande demais.
Mas a verdade tem uma paciência estranha.
Ela espera.
Às vezes espera décadas.
E um dia volta no rosto de um desconhecido.
O primeiro amor, então, reaparece não como romance, mas como pergunta: o que foi aquilo? O que eu perdi? O que eu entendi errado? O que eu ainda carrego? E, talvez a pergunta mais difícil: quem eu seria se aquele amor tivesse podido existir sem medo?
Não sei se a literatura responde a isso. Talvez não responda. Talvez a literatura seja justamente o lugar onde essas perguntas podem continuar abertas sem nos destruir completamente.
Besson não escreve para resolver Thomas. Escreve para lembrar Thomas. E lembrar, aqui, não é fazer justiça no sentido comum. É impedir que uma experiência desapareça no buraco das coisas que não puderam ser ditas.
No fundo, talvez todo primeiro amor seja uma espécie de idioma. A gente aprende nele algumas palavras fundamentais: desejo, perda, corpo, vergonha, coragem, abandono. O problema é que quase sempre aprendemos essas palavras antes de saber usá-las.
Só depois, muito depois, talvez possamos escrever.
E quando escrevemos, não estamos necessariamente curados.
Estamos apenas dando à ferida uma forma mais precisa.
Talvez seja isso que Mentiras que contamos faz tão bem: mostrar que certas histórias não passam. Elas aprendem a falar.
