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Mostrando postagens com o rótulo Autoficção

asas de metal

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O anjo de asas de metal Durante boa parte da minha infância sonhei com o mesmo anjo. Não sei exatamente quando começou. Devia ter uns oito anos. Também não lembro quando terminou. Talvez aos treze, pouco antes de nos mudarmos da Argentina para o Brasil. O que sei é que, durante anos, o sonho voltava. Era sempre à noite. Eu corria por ruas vazias enquanto um anjo voava acima de mim. Não tentava me alcançar. Não dizia uma palavra. Apenas me seguia. Eu corria. Tentava gritar. Nenhum som saía da minha boca. O detalhe mais estranho é que suas asas não eram feitas de penas. Eram de metal. Durante muito tempo pensei que o que havia permanecido comigo fosse o medo. Afinal, era um pesadelo recorrente. Mas, muitos anos depois, percebi que minha memória havia escolhido guardar outra coisa. Sempre que penso naquele sonho, a primeira imagem que me vem à cabeça não é a da perseguição. É a da luz. A luz da noite refletindo naquele metal. É curioso como a memória funciona....

A roda de fiar da capa de la Margarita não está ali por acaso

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Quando alguém olha pela primeira vez para a capa de la Margarita , normalmente repara na roda de fiar antes de qualquer outra coisa. É um objeto antigo, pouco comum nas capas de livros contemporâneos. Justamente por isso, ela chama atenção. Ela está ali de propósito. Não porque apareça na história como um objeto importante. Nem porque eu quisesse criar uma atmosfera de época. A roda de fiar ocupa o centro da capa porque ela sintetiza uma das ideias que mais me acompanharam enquanto escrevia o romance: algumas vidas são construídas fio por fio. Uma roda de fiar faz exatamente isso. Ela transforma fibras dispersas em um único fio contínuo. O movimento parece simples, quase repetitivo, mas dele nasce algo resistente o suficiente para ser tecido. Sempre achei bonita essa imagem. A memória também funciona assim. Ela raramente chega pronta. É feita de pequenos fragmentos que, com o tempo, aprendemos a ligar. Tempo que gira Existe outra razão para essa escolha. A roda não trabalha depre...

Como escrever sobre a própria família sem transformar todo mundo em personagem processável

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Escrever sobre a própria família é uma das formas mais perigosas de literatura doméstica. Não porque falte material. Material costuma sobrar. Famílias são pequenas fábricas de cenas, frases absurdas, silêncios antigos, feridas mal arquivadas, tias que sabem demais, primos que não sabem nada e almoços em que todo mundo finge que a história começou no arroz. O problema é justamente esse: tem coisa demais. Quando a gente escreve sobre a própria família, não está apenas inventando personagens. Está mexendo em pessoas que ainda existem, existiram ou continuam existindo dentro da cabeça de alguém. E essas pessoas podem ter CPF, memória própria, advogado imaginário e uma versão completamente diferente dos fatos. A pergunta, então, não é apenas: posso escrever sobre minha família? Pode. A pergunta melhor é: como escrever sobre minha família sem transformar todo mundo em personagem processável? Família não é material neutro Todo escritor usa a própria vida, mesmo quando jura que não. ...

Autobiografia, autoficção e autoetnografia: qual é a diferença?

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Toda vez que alguém escreve a partir da própria vida, está fazendo autobiografia? A resposta curta seria: não exatamente. A resposta mais honesta seria: depende do tamanho da confusão. Porque escrever a partir da própria vida nunca é apenas “contar o que aconteceu”. A vida, quando passa para o papel, muda de roupa. Ganha ritmo, corte, silêncio, exagero, vergonha. A lembrança que parecia sólida começa a desmanchar na mão. O episódio que parecia central fica pequeno. A cena lateral, aquela que ninguém fotografou, cresce até ocupar o livro inteiro. E então surgem essas palavras que às vezes parecem parentes próximos, mas não são a mesma coisa: autobiografia , autoficção e autoetnografia . Todas lidam com o “eu”. Mas cada uma desconfia dele de um jeito diferente. Autobiografia: quando a vida tenta virar relato A autobiografia é, talvez, a forma mais conhecida de escrita de si. Nela, uma pessoa conta a própria vida, geralmente tentando organizar a experiência em uma narrativa reco...

A maternidade sem documento

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Em la Margarita , há uma cena de aniversário que me acompanha de um jeito estranho. Não é uma cena grandiosa. Não tem festa, não tem abundância, não tem epifania cinematográfica. Tem um bolinho de chocolate pequeno demais, uma vela branca grossa demais, daquelas que se usam quando falta luz, e uma menina que, aos catorze anos, já aprendeu a não esperar muita coisa do próprio aniversário. Margarita diz que nunca se empolgava com estas datas. Em casa, Mamá fazia o mínimo possível. Assava um bolo, reunia os irmãos, aplaudia baixo. Quase inaudível. Como se aquele gesto fosse mais uma obrigação do que um ato de carinho. E talvez seja isso que doa na cena. Não é a ausência completa do cuidado. É o cuidado pela metade. O cuidado sem calor. O gesto que existe, mas não chega. Logo depois, Margarita encontra la Ofélia, e o dia muda de temperatura. As duas vão ao clube, assistem ao jogo de basquete, treinam, correm, riem, roubam frutas secas da cozinha da igreja e fogem da mulher do pastor com...

O espanhol, o português e a língua da mãe

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Em la Margarita , o espanhol e o português não são apenas idiomas. Eles são território. São casa. São cicatriz. São aquilo que sobra quando alguém atravessa uma fronteira e percebe que o corpo chegou antes da linguagem. A língua da minha mãe não era exatamente o espanhol. Era uma mistura de espanhol entrerriano, português aprendido no susto, alemão herdado como ruído familiar, religião, insulto, carinho torto, comando doméstico e sobrevivência. Logo no começo do livro, Margarita se apresenta como alguém feita de duas geografias e duas línguas:   “Eu que com estas mãos construí uma vida em dois países e duas línguas quando estudei de noite em uma turma mal frequentada para terminar a primaria e secundaria […] E sou eu e meu filho y nadie más.”   Gosto muito desse “y nadie más”. Em português, “e ninguém mais” funcionaria. Mas não teria o mesmo peso. “Y nadie más” parece fechar uma porta com força. Parece uma mulher colocando o filho debaixo do braço e dizendo: daqui para fren...

Escrever a mãe sem transformar a mãe em santa

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Escrever sobre a própria mãe é entrar em uma casa onde todas as portas rangem. Não porque haja algo necessariamente sombrio ali. Mas porque tudo faz barulho. Uma lembrança encosta na outra. Um gesto antigo puxa uma frase. Uma frase puxa uma culpa. Uma culpa puxa uma cena que talvez nem tenha acontecido exatamente daquele jeito, mas que ficou guardada como se tivesse. A mãe, na literatura, costuma correr dois riscos: virar santa ou virar ré. De um lado, a mãe perfeita. A mulher que sofreu, amou, cuidou, renunciou, sustentou o mundo em silêncio e, por isso, passa a ser colocada num altar. Do outro, a mãe culpada. A origem de todos os traumas, de todas as faltas, de todas as rachaduras do filho. Nenhuma das duas me interessa muito. A santa é imóvel demais. A ré é simples demais. Uma mãe, antes de ser mãe, é uma pessoa. E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de escrever. Porque, para o filho, a mãe quase sempre nasce junto com ele. É como se ela começasse a existir no momen...

O filho que escreve a mãe

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Há um gesto delicado, quase perigoso, em escrever sobre a própria mãe. Não perigoso porque falte amor. Talvez justamente o contrário. Perigoso porque existe amor demais, proximidade demais, memória demais. A mãe é uma figura tão próxima que às vezes se torna invisível. Ela está no começo de tudo: no corpo, na língua, na comida, no medo, no modo como a gente segura uma xícara, na maneira como pedimos desculpas, no tipo de tristeza que aprendemos a reconhecer como nossa. E talvez por isso seja tão difícil transformá-la em literatura. A mãe, para o filho, costuma aparecer primeiro como função. Ela cuida. Ela protege. Ela reclama. Ela trabalha. Ela prepara alguma coisa. Ela espera. Ela se irrita. Ela diz para levar blusa. Ela é presença, cobrança, abrigo, limite, culpa. Durante muito tempo, talvez a gente nem perceba que há uma pessoa ali. Uma pessoa inteira. Foi isso que mais me atravessou em Lutas e metamorfoses de uma mulher   1 , de Édouard Louis. O livro parece nascer de um...

O primeiro amor como uma ferida que aprende a escrever

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Há livros que não parecem ter sido escritos para contar uma história. Parecem ter sido escritos porque uma história, depois de muitos anos, continuou batendo do lado de dentro. Mentiras que contamos , de Philippe Besson, me parece um desses livros. A trama começa com um tipo de assombração muito simples: um rosto. O narrador vê um homem jovem que lembra Thomas, seu primeiro amor, e essa semelhança abre uma porta no tempo. Não é uma lembrança organizada. Não é uma nostalgia educada. É uma invasão. De repente, o passado volta com a violência das coisas que nunca foram completamente enterradas. E talvez seja isso que mais me interessa no livro: a ideia de que o primeiro amor não termina exatamente. Ele muda de estado físico. Primeiro é corpo. Depois é ausência. Depois é memória. Depois, se houver sorte — ou condenação — vira literatura. Thomas não é apenas uma pessoa amada. Ele é também um lugar. Um lugar onde o narrador descobriu o desejo, o medo, a vergonha, a felicidade clandestina. Po...