O espanhol, o português e a língua da mãe

Em la Margarita, o espanhol e o português não são apenas idiomas. Eles são território. São casa. São cicatriz. São aquilo que sobra quando alguém atravessa uma fronteira e percebe que o corpo chegou antes da linguagem.

A língua da minha mãe não era exatamente o espanhol. Era uma mistura de espanhol entrerriano, português aprendido no susto, alemão herdado como ruído familiar, religião, insulto, carinho torto, comando doméstico e sobrevivência.

Logo no começo do livro, Margarita se apresenta como alguém feita de duas geografias e duas línguas:

 

“Eu que com estas mãos construí uma vida em dois países e duas línguas quando estudei de noite em uma turma mal frequentada para terminar a primaria e secundaria […] E sou eu e meu filho y nadie más.”

 

Gosto muito desse “y nadie más”. Em português, “e ninguém mais” funcionaria. Mas não teria o mesmo peso. “Y nadie más” parece fechar uma porta com força. Parece uma mulher colocando o filho debaixo do braço e dizendo: daqui para frente, o mundo que lute.

A mistura de línguas em la Margarita não é enfeite. O espanhol entra quando o português não dá conta. O português entra quando a narradora tenta construir uma nova vida. E, entre os dois, aparece uma terceira coisa: uma língua íntima, torta, meio inventada, mas verdadeira.

Quando Margarita lembra da infância, a mãe não é apenas “minha mãe”. Ela é “Mamá”. O pai é “Papá”. Os irmãos são la Emérita, el Hugo, la Amanda, el Orlando. Isso pode parecer erro para a norma culta, mas dentro do livro é pertencimento.

Há uma passagem pequena em que a escola tenta corrigir essa intimidade:

 

“Chegamos na escola atrasados e dando pena. Quando la Josefa, a maestra — que nos corrigia sempre que colocávamos um el ou la na frente de um nome próprio, pois falava que era má educação — olhou para mim com espanto do meu guarda-pó bicolor marrom e branco […]”

 

A professora chama de má educação. Mas para Margarita aquilo é família. Tirar o “la” de “la Amanda” não é apenas corrigir uma frase. É arrancar uma camada de afeto.

Talvez por isso algumas palavras não devam ser traduzidas. “Mamá” não é exatamente “mãe”. Claro que é, mas não é. “Mamá” vem com outra temperatura. Vem com panela no fogo, rebenque, vestido costurado, dízimo, orgulho, ameaça, silêncio.

E há frases que só funcionam no idioma em que foram feridas:

 

“Mamá abriu a porta, suspirou um suspiro de desapontamento, como se estivesse dizendo meus filhos são fracos, e falou forte e claro: ‘Ni una lágrima más.’”

 

“Nem uma lágrima a mais” seria correto. Mas “Ni una lágrima más” tem a dureza da ordem doméstica. Não pede compreensão. Se impõe.

Depois, quando Margarita chega ao Brasil, o português não aparece como aula. Aparece como fruta, mercado, sobrevivência, corpo:

 

“O que mais me interessou foi a quantidade de frutas que não existiam em Campana ou Maciá. Não fazia ideia qual era o gosto de um maracujá, nem sabia pronunciar a palavra direito. Penso que foi ali que comecei a aprender pílulas de português. Me confundia com as etiquetas, mas começava a criar paralelos: lechuga era alface e albahaca era manjericão.”

 

Essa passagem é bonita porque mostra que aprender uma língua não é só encontrar equivalências. Lechuga vira alface. Albahaca vira manjericão. Mas e maracujá? E mamão? E manga? Como traduzir aquilo que não existia no mundo anterior?

A língua estrangeira, então, deixa de ser ameaça e vira expansão.

Mais adiante, Margarita se encanta com uma palavra brasileira:

 

“De todas, uma palavra era a que mais me intrigava: bater. No brasil se batem os ovos, batem dois carros, e em uma briga, um bate no outro. Em outros momentos representa um barulho, também têm as batidas policiais, bate o coração, bate saudades, a batida da música […] Tudo se bate.”

 

É engraçado, mas é sério. Porque “bater” contém cozinha, trânsito, polícia, coração, saudade, música, bebida e violência. Margarita percebe isso porque vem de fora. Mas também porque conhece a violência por dentro.

O filho nasce nesse cruzamento:

 

“Ele aprenderia português antes do espanhol, mesmo que o meu sotaque se filtrasse nele pelos ouvidos e quiçá, ponto crucial, seria criado por uma mulher e mais ninguém.”

 

Essa frase me emociona. O filho aprenderia português antes do espanhol, mas o espanhol não desapareceria. Ele se filtraria pelos ouvidos. Antes de qualquer gramática, vem o sotaque. Antes da escola, vem a mãe.

Talvez toda família tenha uma língua secreta. A dos Lung era feita de “Mamá”, “Papá”, “la Chula”, “ni una lágrima más”, “y nadie más”, “boluda”, “pelotudo”, “meu filho”, “mi hijo”. Uma língua sem fronteira fixa. Uma língua com poeira de estrada, cheiro de mate cocido, medo de igreja, gosto de maracujá e manga.

Uma língua onde uma palavra em espanhol às vezes diz o que o português não consegue.

E onde o português, aos poucos, oferece uma vida que o espanhol talvez ainda não soubesse imaginar.




Escrevi la Margarita tentando escutar essa língua misturada da mãe, da memória e da sobrevivência.

É um romance sobre uma mulher que atravessa países, trabalhos, violências, filhos e pequenas vitórias sem nunca deixar de ser contraditória, dura, engraçada e profundamente humana.

Você pode encontrar o livro aqui: