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Mostrando postagens com o rótulo Literatura brasileira

Escrever a mãe sem transformar a mãe em santa

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Escrever sobre a própria mãe é entrar em uma casa onde todas as portas rangem. Não porque haja algo necessariamente sombrio ali. Mas porque tudo faz barulho. Uma lembrança encosta na outra. Um gesto antigo puxa uma frase. Uma frase puxa uma culpa. Uma culpa puxa uma cena que talvez nem tenha acontecido exatamente daquele jeito, mas que ficou guardada como se tivesse. A mãe, na literatura, costuma correr dois riscos: virar santa ou virar ré. De um lado, a mãe perfeita. A mulher que sofreu, amou, cuidou, renunciou, sustentou o mundo em silêncio e, por isso, passa a ser colocada num altar. Do outro, a mãe culpada. A origem de todos os traumas, de todas as faltas, de todas as rachaduras do filho. Nenhuma das duas me interessa muito. A santa é imóvel demais. A ré é simples demais. Uma mãe, antes de ser mãe, é uma pessoa. E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de escrever. Porque, para o filho, a mãe quase sempre nasce junto com ele. É como se ela começasse a existir no momen...

Morrer em uma cidade que não para: O ano em que morri em Nova York, Paris e The Mountain Goats

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Existe uma fantasia muito persistente de que uma viagem pode nos salvar. Não digo salvar no sentido turístico da coisa — descansar, conhecer lugares, tirar fotos, comer melhor, caminhar mais. Digo salvar num sentido quase religioso: sair de um lugar para que uma versão antiga de nós fique para trás. Como se bastasse atravessar o oceano para que a tristeza perdesse o endereço. Como se a depressão tivesse preguiça de passar pela imigração. Mas não é assim. A tristeza viaja junto. Talvez nenhuma música do The Mountain Goats diga isso de forma mais direta do que “Up the Wolves” . Há uma imagem ali que sempre me pareceu brutal: a de que existe um fantasma no fundo do armário, não importa onde você more. Essa é uma frase quase perfeita sobre a inutilidade parcial das fugas. Porque a gente costuma imaginar o trauma como uma coisa presa ao lugar. A casa antiga. O quarto antigo. A cidade antiga. O relacionamento antigo. Então, em algum ponto, parece lógico pensar: se eu sair daqui, se eu atrave...

Nem todo milagre é bonito: o realismo mágico sem glamour de A cabeça do santo

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Gosto quando o realismo mágico não parece decoração da realidade. Quando ele não está ali para deixar o mundo mais bonito, mais luminoso, mais Instagramável. Quando o fantástico não aparece como um truque narrativo, mas como uma necessidade. Como se a realidade tivesse chegado ao seu limite e precisasse, por falta de opção, abrir uma rachadura para o impossível entrar. É isso que acontece em A cabeça do santo, de Socorro Acioli. O romance conta a história de Samuel, um jovem que, depois da morte da mãe, atravessa o sertão para cumprir uma promessa: encontrar a avó e o pai que nunca conheceu. Ele chega à cidade de Candeia, praticamente abandonado, faminto, ferido, sem dinheiro e sem lugar para ficar. Então encontra abrigo dentro da cabeça oca de uma estátua inacabada de Santo Antônio. Lá dentro, começa a ouvir vozes. Vozes de mulheres rezando ao santo casamenteiro. Vozes pedindo amor, casamento, destino, socorro. O romance foi publicado pela Companhia das Letras e a própria editora dest...