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Morrer em uma cidade que não para: O ano em que morri em Nova York, Paris e The Mountain Goats

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Existe uma fantasia muito persistente de que uma viagem pode nos salvar. Não digo salvar no sentido turístico da coisa — descansar, conhecer lugares, tirar fotos, comer melhor, caminhar mais. Digo salvar num sentido quase religioso: sair de um lugar para que uma versão antiga de nós fique para trás. Como se bastasse atravessar o oceano para que a tristeza perdesse o endereço. Como se a depressão tivesse preguiça de passar pela imigração. Mas não é assim. A tristeza viaja junto. Talvez nenhuma música do The Mountain Goats diga isso de forma mais direta do que “Up the Wolves” . Há uma imagem ali que sempre me pareceu brutal: a de que existe um fantasma no fundo do armário, não importa onde você more. Essa é uma frase quase perfeita sobre a inutilidade parcial das fugas. Porque a gente costuma imaginar o trauma como uma coisa presa ao lugar. A casa antiga. O quarto antigo. A cidade antiga. O relacionamento antigo. Então, em algum ponto, parece lógico pensar: se eu sair daqui, se eu atrave...

Nem todo milagre é bonito: o realismo mágico sem glamour de A cabeça do santo

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Gosto quando o realismo mágico não parece decoração da realidade. Quando ele não está ali para deixar o mundo mais bonito, mais luminoso, mais Instagramável. Quando o fantástico não aparece como um truque narrativo, mas como uma necessidade. Como se a realidade tivesse chegado ao seu limite e precisasse, por falta de opção, abrir uma rachadura para o impossível entrar. É isso que acontece em A cabeça do santo, de Socorro Acioli. O romance conta a história de Samuel, um jovem que, depois da morte da mãe, atravessa o sertão para cumprir uma promessa: encontrar a avó e o pai que nunca conheceu. Ele chega à cidade de Candeia, praticamente abandonado, faminto, ferido, sem dinheiro e sem lugar para ficar. Então encontra abrigo dentro da cabeça oca de uma estátua inacabada de Santo Antônio. Lá dentro, começa a ouvir vozes. Vozes de mulheres rezando ao santo casamenteiro. Vozes pedindo amor, casamento, destino, socorro. O romance foi publicado pela Companhia das Letras e a própria editora dest...