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Mostrando postagens com o rótulo Literatura brasileira

A maternidade sem documento

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Em la Margarita , há uma cena de aniversário que me acompanha de um jeito estranho. Não é uma cena grandiosa. Não tem festa, não tem abundância, não tem epifania cinematográfica. Tem um bolinho de chocolate pequeno demais, uma vela branca grossa demais, daquelas que se usam quando falta luz, e uma menina que, aos catorze anos, já aprendeu a não esperar muita coisa do próprio aniversário. Margarita diz que nunca se empolgava com estas datas. Em casa, Mamá fazia o mínimo possível. Assava um bolo, reunia os irmãos, aplaudia baixo. Quase inaudível. Como se aquele gesto fosse mais uma obrigação do que um ato de carinho. E talvez seja isso que doa na cena. Não é a ausência completa do cuidado. É o cuidado pela metade. O cuidado sem calor. O gesto que existe, mas não chega. Logo depois, Margarita encontra la Ofélia, e o dia muda de temperatura. As duas vão ao clube, assistem ao jogo de basquete, treinam, correm, riem, roubam frutas secas da cozinha da igreja e fogem da mulher do pastor com...

O espanhol, o português e a língua da mãe

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Em la Margarita , o espanhol e o português não são apenas idiomas. Eles são território. São casa. São cicatriz. São aquilo que sobra quando alguém atravessa uma fronteira e percebe que o corpo chegou antes da linguagem. A língua da minha mãe não era exatamente o espanhol. Era uma mistura de espanhol entrerriano, português aprendido no susto, alemão herdado como ruído familiar, religião, insulto, carinho torto, comando doméstico e sobrevivência. Logo no começo do livro, Margarita se apresenta como alguém feita de duas geografias e duas línguas:   “Eu que com estas mãos construí uma vida em dois países e duas línguas quando estudei de noite em uma turma mal frequentada para terminar a primaria e secundaria […] E sou eu e meu filho y nadie más.”   Gosto muito desse “y nadie más”. Em português, “e ninguém mais” funcionaria. Mas não teria o mesmo peso. “Y nadie más” parece fechar uma porta com força. Parece uma mulher colocando o filho debaixo do braço e dizendo: daqui para fren...

Escrever a mãe sem transformar a mãe em santa

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Escrever sobre a própria mãe é entrar em uma casa onde todas as portas rangem. Não porque haja algo necessariamente sombrio ali. Mas porque tudo faz barulho. Uma lembrança encosta na outra. Um gesto antigo puxa uma frase. Uma frase puxa uma culpa. Uma culpa puxa uma cena que talvez nem tenha acontecido exatamente daquele jeito, mas que ficou guardada como se tivesse. A mãe, na literatura, costuma correr dois riscos: virar santa ou virar ré. De um lado, a mãe perfeita. A mulher que sofreu, amou, cuidou, renunciou, sustentou o mundo em silêncio e, por isso, passa a ser colocada num altar. Do outro, a mãe culpada. A origem de todos os traumas, de todas as faltas, de todas as rachaduras do filho. Nenhuma das duas me interessa muito. A santa é imóvel demais. A ré é simples demais. Uma mãe, antes de ser mãe, é uma pessoa. E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de escrever. Porque, para o filho, a mãe quase sempre nasce junto com ele. É como se ela começasse a existir no momen...

Morrer em uma cidade que não para: O ano em que morri em Nova York, Paris e The Mountain Goats

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Existe uma fantasia muito persistente de que uma viagem pode nos salvar. Não digo salvar no sentido turístico da coisa — descansar, conhecer lugares, tirar fotos, comer melhor, caminhar mais. Digo salvar num sentido quase religioso: sair de um lugar para que uma versão antiga de nós fique para trás. Como se bastasse atravessar o oceano para que a tristeza perdesse o endereço. Como se a depressão tivesse preguiça de passar pela imigração. Mas não é assim. A tristeza viaja junto. Talvez nenhuma música do The Mountain Goats diga isso de forma mais direta do que “Up the Wolves” . Há uma imagem ali que sempre me pareceu brutal: a de que existe um fantasma no fundo do armário, não importa onde você more. Essa é uma frase quase perfeita sobre a inutilidade parcial das fugas. Porque a gente costuma imaginar o trauma como uma coisa presa ao lugar. A casa antiga. O quarto antigo. A cidade antiga. O relacionamento antigo. Então, em algum ponto, parece lógico pensar: se eu sair daqui, se eu atrave...

Nem todo milagre é bonito: o realismo mágico sem glamour de A cabeça do santo

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Gosto quando o realismo mágico não parece decoração da realidade. Quando ele não está ali para deixar o mundo mais bonito, mais luminoso, mais Instagramável. Quando o fantástico não aparece como um truque narrativo, mas como uma necessidade. Como se a realidade tivesse chegado ao seu limite e precisasse, por falta de opção, abrir uma rachadura para o impossível entrar. É isso que acontece em A cabeça do santo, de Socorro Acioli. O romance conta a história de Samuel, um jovem que, depois da morte da mãe, atravessa o sertão para cumprir uma promessa: encontrar a avó e o pai que nunca conheceu. Ele chega à cidade de Candeia, praticamente abandonado, faminto, ferido, sem dinheiro e sem lugar para ficar. Então encontra abrigo dentro da cabeça oca de uma estátua inacabada de Santo Antônio. Lá dentro, começa a ouvir vozes. Vozes de mulheres rezando ao santo casamenteiro. Vozes pedindo amor, casamento, destino, socorro. O romance foi publicado pela Companhia das Letras e a própria editora dest...