Escrever a mãe sem transformar a mãe em santa
Escrever sobre a própria mãe é entrar em uma casa onde todas as portas rangem.
Não porque haja algo necessariamente sombrio ali. Mas porque tudo faz barulho. Uma lembrança encosta na outra. Um gesto antigo puxa uma frase. Uma frase puxa uma culpa. Uma culpa puxa uma cena que talvez nem tenha acontecido exatamente daquele jeito, mas que ficou guardada como se tivesse.
A mãe, na literatura, costuma correr dois riscos: virar santa ou virar ré.
De um lado, a mãe perfeita. A mulher que sofreu, amou, cuidou, renunciou, sustentou o mundo em silêncio e, por isso, passa a ser colocada num altar. Do outro, a mãe culpada. A origem de todos os traumas, de todas as faltas, de todas as rachaduras do filho.
Nenhuma das duas me interessa muito.
A santa é imóvel demais.
A ré é simples demais.
Uma mãe, antes de ser mãe, é uma pessoa. E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de escrever. Porque, para o filho, a mãe quase sempre nasce junto com ele. É como se ela começasse a existir no momento em que nos pega no colo. Tudo o que veio antes parece prólogo, bastidor, informação complementar.
Mas não é.
Houve uma mulher antes da mãe. Houve uma menina. Houve medos que não tinham nada a ver conosco. Houve desejos que não dependiam da nossa existência. Houve sonhos, escolhas, perdas, vaidades, pequenas alegrias, pequenos egoísmos, pequenas coragens. Houve uma vida inteira antes de ela se tornar personagem central da nossa.
Escrever a mãe sem transformá-la em santa é tentar devolver a ela essa vida anterior.
Não para diminuir o amor. Pelo contrário. Talvez amar alguém de verdade seja justamente aceitar que essa pessoa não cabe na função que teve para nós. Uma mãe não é apenas aquilo que nos deu. Também é aquilo que perdeu, aquilo que quis, aquilo que não conseguiu dizer, aquilo que talvez tenha escondido até de si mesma.
Quando escrevo la Margarita, uma das dificuldades é essa: não transformar Margarita numa estátua afetiva.
A estátua é bonita, mas não respira.
E eu não queria escrever uma estátua. Queria escrever uma mulher. Uma mulher com contradições, com força, com cansaço, com graça, com medo, com momentos de delicadeza e momentos de dureza. Uma mulher que viveu dentro das condições possíveis, e que nem por isso pode ser reduzida a essas condições.
Existe uma tentação muito grande, quando escrevemos sobre quem amamos, de proteger demais. Tiramos as arestas. Limpamos as frases. Escondemos as partes menos luminosas. Fazemos isso por cuidado, claro. Mas também fazemos por medo. Medo de parecer injustos. Medo de trair a memória. Medo de que o leitor veja demais.
Só que a literatura começa justamente quando a gente para de maquiar a vida.
Não estou falando de expor por expor. Nem de transformar intimidade em espetáculo. Isso também não me interessa. Existe uma diferença enorme entre revelar e explorar. Entre escrever com coragem e escrever com crueldade.
O desafio é encontrar um ponto de ternura que não seja mentira.1
Porque a ternura, quando é verdadeira, não precisa apagar a complexidade. Ela consegue olhar para uma pessoa inteira. Não apenas para a versão mais aceitável dessa pessoa. Não apenas para a versão que combina com a saudade.
Saudade, às vezes, edita demais.
Ela corta os silêncios desconfortáveis. Aumenta a luz de certas cenas. Coloca música onde talvez houvesse apenas cansaço. A saudade é uma grande montadora de filmes. E escrever contra essa montagem é difícil, porque a gente também quer acreditar nela.
Mas a mãe real é maior do que a mãe idealizada.
A mãe real pode estar cansada. Pode errar. Pode não saber o que fazer. Pode amar e, ainda assim, não conseguir demonstrar esse amor do jeito que o filho gostaria. Pode ter sido generosa em uma cena e impaciente na seguinte. Pode ter nos salvado de algumas coisas e nos deixado sozinhos em outras. Isso não a torna menor. Torna-a humana.
E talvez seja isso que a literatura pode oferecer de mais bonito a uma mãe: humanidade.
Não santidade.
Santidade é distância. Humanidade é presença.
Quando transformamos alguém em santo, paramos de escutar. Já decidimos quem aquela pessoa foi. A imagem está pronta. O retrato está na parede. A moldura venceu.
Mas escrever é desmontar a moldura.
É perguntar: quem era essa pessoa quando ninguém estava olhando? O que ela queria da vida? O que a vida permitiu? O que ela inventou para continuar? Que parte dela sobreviveu apesar de tudo?
No caso de uma mãe, essas perguntas são ainda mais delicadas porque passam por nós. A vida dela nos atravessa. A história dela, de algum modo, nos fabricou. Então, escrever sobre ela é também escrever sobre a nossa origem, mas sem cometer o erro de achar que a origem explica tudo.
Uma mãe não é uma chave interpretativa.
Uma mãe não é uma tese.
Uma mãe não é um símbolo pronto.
Ela pode virar literatura justamente porque nunca foi apenas uma coisa.
Por isso, escrever à mãe exige uma espécie de educação do olhar.2 É preciso olhar de novo. Olhar menos como filho e mais como alguém que tenta compreender. Não abandonar o amor de filho, claro. Esse amor está ali, e seria falso fingir que não está. Mas talvez seja preciso misturá-lo com outro tipo de atenção: uma atenção mais paciente, menos defensiva, menos ansiosa para concluir.3
A mãe não precisa ser perfeita para merecer um livro.
Aliás, talvez seja o contrário. Ela merece um livro porque foi real. Porque atravessou a vida como pôde. Porque carregou coisas que ninguém viu. Porque teve um nome antes de ter um papel. Porque sua história não cabe apenas na palavra “mãe”.
Escrever a mãe sem transformá-la em santa é permitir que ela volte a se mover.
Que ela saia do altar.
Que ela desça da fotografia.
Que ela entre novamente na cozinha, na rua, no medo, na juventude, no riso, no trabalho, no desejo, na memória.
Não para julgá-la.
Para encontrá-la.
E talvez todo livro escrito por um filho sobre uma mãe seja, no fundo, uma tentativa tardia de encontro. Não com a mãe que cuidou de nós. Não apenas com a mãe que lembramos. Mas com aquela pessoa anterior, inteira, misteriosa, que esteve ali o tempo todo e que, por muito tempo, talvez não tenhamos sabido ver.
