The Best Ever Death Metal Band in Denton: quando punir o sonho cria monstros


Há uma coisa muito bonita — e muito perigosa — em levar adolescentes a sério.

Digo perigosa porque adolescentes, quando levados a sério, deixam de ser apenas “uma fase”. Deixam de ser barulho no quarto. Deixam de ser cabelo estranho, camiseta preta, nome de banda ruim, desenho de pentagrama no caderno, raiva teatral, letra escrita com caneta Bic na última página da apostila.

Quando levamos adolescentes a sério, percebemos uma coisa desconfortável: muitas vezes eles estão tentando salvar a própria vida com os materiais mais precários possíveis.

Uma guitarra ruim.
Um quarto emprestado.
Um amigo.
Um nome de banda.
Uma fantasia de fuga.
Uma frase absurda repetida como oração.

É disso que fala “The Best Ever Death Metal Band in Denton”, dos The Mountain Goats. A música está no álbum All Hail West Texas, lançado originalmente em 2002, um disco frequentemente lembrado pela crueza lo-fi e pela força narrativa das canções de John Darnielle.

A história é simples: dois garotos, Cyrus e Jeff, amigos desde a escola, querem formar uma banda de death metal. Eles ensaiam no quarto, imaginam fama, palco, fortuna, jatos particulares. Escolhem nomes ridículos e maravilhosos para a banda. Escrevem seus nomes nos instrumentos com símbolos satânicos. Fazem aquilo que adolescentes fazem quando ainda não sabem a diferença entre estética, identidade e salvação.

E então vem o mundo adulto.

O mundo adulto olha para aquilo e não vê imaginação.
Não vê amizade.
Não vê desejo de pertencer.
Não vê uma linguagem possível para uma dor que ainda não aprendeu a falar bonito.

O mundo adulto vê perigo.

E Cyrus é mandado para uma escola onde dizem que ele nunca será famoso. Jeff, separado do amigo, começa a escrever cartas e a elaborar um plano de vingança. A música então chega à frase que parece conter todo o seu sistema moral:

 

“When you punish a person for dreaming his dream, don’t expect him to thank or forgive you.”

 

É uma frase simples. Quase óbvia. E talvez por isso mesmo devastadora.

Porque há uma violência muito específica em punir alguém pelo sonho antes mesmo que o sonho tenha tido a chance de fracassar sozinho.

Nem todo sonho precisa dar certo. Aliás, a maioria não dá. A maioria dos sonhos adolescentes é mesmo exagerada, cafona, mal formulada, cheia de ingenuidade e delírio. A melhor banda de death metal de Denton provavelmente nunca seria a melhor banda de death metal de Denton. Talvez nem saísse do quarto. Talvez Cyrus e Jeff brigassem depois de três ensaios. Talvez o baterista nunca aparecesse. Talvez a banda acabasse antes de ter uma música inteira.

Mas o sonho tinha direito ao seu próprio fracasso.

E isso é muito diferente de ser esmagado por uma instituição, por uma família, por uma escola, por uma igreja, por algum adulto que confunde proteção com amputação.

Há sonhos que, quando reprimidos cedo demais, não desaparecem. Eles fermentam.

Viramos adultos e chamamos isso de rancor, vício, cinismo, autossabotagem, inadequação. Mas, às vezes, antes de ser tudo isso, era só um quarto. Era só um amigo. Era só alguém dizendo: vamos montar uma banda.

The Mountain Goats entende muito bem esse tipo de tragédia pequena. John Darnielle escreve como quem sabe que a vida de uma pessoa pode ser desviada não apenas por grandes catástrofes, mas por pequenas humilhações repetidas. Por alguém rir na hora errada. Por alguém dizer “isso é ridículo” quando aquilo era, para você, a primeira tentativa de construir uma alma.

O refrão final da música, com seu “Hail Satan”, costuma soar engraçado, quase absurdo. Mas esse grito não precisa ser entendido apenas como uma provocação satânica literal. Ele funciona também como uma celebração de duas pessoas sendo fiéis a si mesmas.

Isso muda tudo.

Porque o “Hail Satan” da música não é exatamente uma declaração demoníaca. É um grito de lealdade.

Lealdade ao amigo.
Lealdade ao quarto.
Lealdade ao sonho bobo.
Lealdade ao direito de não ser reduzido ao diagnóstico que fizeram de você.

Talvez seja por isso que essa música me pareça tão literária. Ela não está interessada em saber se Cyrus e Jeff tinham talento. Essa é a pergunta mais pobre. O mundo adulto adora fazer essa pergunta porque ela parece racional: “mas eles eram bons?” Como se a validade de um sonho dependesse de sua eficiência futura. Como se toda imaginação precisasse apresentar um plano de negócios.

A música pergunta outra coisa: o que acontece com uma pessoa quando aquilo que ela ama é tratado como prova de que há algo errado com ela?

Essa pergunta é muito mais profunda.

E é também uma pergunta para quem escreve.

Todo escritor conhece, em algum grau, a vergonha do sonho. A vergonha de dizer: estou escrevendo um livro. Estou escrevendo um romance. Estou tentando contar a história da minha mãe. Estou tentando transformar uma dor familiar, uma memória, uma obsessão, uma coisa íntima demais, em linguagem.

Dito assim, parece nobre.

Mas no começo quase nunca é nobre.

No começo é só um arquivo mal nomeado.
Um caderno.
Uma frase ruim.
Uma ideia que talvez ninguém entenda.
Uma insistência meio patética.

E existe sempre alguém, dentro ou fora de nós, dizendo: quem você pensa que é?

Talvez toda vocação artística comece nesse atrito entre a fragilidade do sonho e a brutalidade da pergunta.

Quem você pensa que é para montar uma banda?
Quem você pensa que é para escrever um livro?
Quem você pensa que é para cantar isso?
Quem você pensa que é para lembrar disso?
Quem você pensa que é para transformar vergonha em obra?

A resposta mais honesta talvez seja: não sei.

Cyrus e Jeff também não sabem. Eles não têm uma estética consolidada, uma estratégia, um release, um empresário, uma visão de mercado. Eles têm apenas um pacto. E, em muitos casos, é assim que a arte começa: como um pacto desproporcional entre duas pessoas, ou entre uma pessoa e a própria sobrevivência.

Por isso, punir o sonho não educa. Punir o sonho ensina outra coisa.

Ensina a esconder.
Ensina a mentir.
Ensina a odiar.
Ensina que a própria imaginação é perigosa.
Ensina que desejar alguma coisa é motivo de vergonha.

E uma pessoa envergonhada do próprio desejo pode se tornar muitas coisas. Algumas tristes. Algumas violentas. Algumas apenas silenciosas. Mas quase sempre há ali uma espécie de mutilação.

O sonho punido não vira maturidade.
Muitas vezes vira monstro.

E talvez o monstro não seja o adolescente com a camiseta de death metal, o pentagrama no caderno e os nomes ridículos de banda.

Talvez o monstro seja o adulto que não suporta ver alguém ainda acreditando.

The Mountain Goats, nessa música, faz uma coisa que a boa literatura também faz: devolve dignidade ao que parecia pequeno. Pega dois garotos inventando uma banda imaginária e transforma isso numa tragédia de formação. Em menos de três minutos, entendemos a amizade, a humilhação, a separação, a vingança, a memória e a recusa.

A melhor banda de death metal de Denton talvez nunca tenha existido de verdade.

Mas também é possível que tenha existido exatamente onde precisava existir: na cabeça de Cyrus e Jeff, no quarto, no nome ainda indeciso, na fantasia de futuro, no gesto de escrever nos instrumentos aquilo que o mundo ainda não autorizava que eles fossem.

E isso, às vezes, basta.

Porque há sonhos que não precisam vencer o mundo.

Precisam apenas sobreviver tempo suficiente para provar que o mundo não conseguiu matá-los.