A roda de fiar da capa de la Margarita não está ali por acaso
Quando alguém olha pela primeira vez para a capa de la Margarita, normalmente repara na roda de fiar antes de qualquer outra coisa. É um objeto antigo, pouco comum nas capas de livros contemporâneos. Justamente por isso, ela chama atenção.
Ela está ali de propósito.
Não porque apareça na história como um objeto importante. Nem porque eu quisesse criar uma atmosfera de época. A roda de fiar ocupa o centro da capa porque ela sintetiza uma das ideias que mais me acompanharam enquanto escrevia o romance: algumas vidas são construídas fio por fio.
Uma roda de fiar faz exatamente isso. Ela transforma fibras dispersas em um único fio contínuo. O movimento parece simples, quase repetitivo, mas dele nasce algo resistente o suficiente para ser tecido. Sempre achei bonita essa imagem. A memória também funciona assim. Ela raramente chega pronta. É feita de pequenos fragmentos que, com o tempo, aprendemos a ligar.
Tempo que gira
Existe outra razão para essa escolha.
A roda não trabalha depressa.
Ela exige paciência, repetição e uma certa confiança de que o gesto de hoje fará sentido muito tempo depois. Escrever um romance me pareceu parecido. Durante anos, fui acumulando histórias, fotografias, lembranças, conversas e silêncios sem saber exatamente como tudo aquilo se encontraria um dia.
Quando finalmente começou a existir um livro, percebi que não estava inventando uma história do zero. Estava fiando uma matéria que já existia.
Talvez escrever seja menos criar do que aprender a dar continuidade a um fio.
Um símbolo de mulheres
Historicamente, a roda de fiar também está ligada ao trabalho feminino. Durante séculos, fiar foi uma atividade cotidiana, invisível e essencial. Poucas pessoas lembram de quem produzia o fio; todos lembram do tecido pronto.
Há algo de profundamente simbólico nisso quando pensamos em la Margarita.
O romance nasce da vida da minha mãe, Margarita. Mas também da vida de tantas mulheres cujos gestos sustentaram famílias inteiras sem jamais ocuparem o centro da narrativa. A roda de fiar me pareceu uma forma silenciosa de prestar homenagem a esse trabalho quase sempre esquecido.
Um objeto que transforma
Gosto da ideia de que os objetos carregam significados antes mesmo de entrarem numa história.
Uma máquina de escrever fala sobre linguagem.
Um relógio fala sobre tempo.
Uma mala fala sobre partida.
A roda de fiar fala sobre transformação.
Ela pega algo frágil e descontínuo e o converte em algo capaz de permanecer. Talvez seja isso que toda autobiografia, toda memória e toda literatura tentem fazer.
Antes da primeira página
Nenhuma capa consegue contar um romance inteiro.
Mas uma boa capa pode ensinar o leitor a fazer a primeira pergunta.
Espero que, ao olhar para a roda de fiar de la Margarita, alguém se pergunte por que ela está ali.
Se isso acontecer, ela já começou a cumprir sua função antes mesmo da primeira página ser aberta.
Nota: A roda de fiar aparece em diferentes tradições como símbolo do tempo, do destino e do trabalho paciente. Das Moiras da mitologia grega aos contos populares europeus, fiar frequentemente representa a construção lenta da vida e da memória. Talvez por isso ela continue sendo uma imagem tão poderosa ainda hoje.

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