A maternidade sem documento

Em la Margarita, há uma cena de aniversário que me acompanha de um jeito estranho. Não é uma cena grandiosa. Não tem festa, não tem abundância, não tem epifania cinematográfica. Tem um bolinho de chocolate pequeno demais, uma vela branca grossa demais, daquelas que se usam quando falta luz, e uma menina que, aos catorze anos, já aprendeu a não esperar muita coisa do próprio aniversário.

Margarita diz que nunca se empolgava com estas datas. Em casa, Mamá fazia o mínimo possível. Assava um bolo, reunia os irmãos, aplaudia baixo. Quase inaudível. Como se aquele gesto fosse mais uma obrigação do que um ato de carinho.

E talvez seja isso que doa na cena. Não é a ausência completa do cuidado. É o cuidado pela metade. O cuidado sem calor. O gesto que existe, mas não chega.

Logo depois, Margarita encontra la Ofélia, e o dia muda de temperatura. As duas vão ao clube, assistem ao jogo de basquete, treinam, correm, riem, roubam frutas secas da cozinha da igreja e fogem da mulher do pastor como se tivessem cometido um crime muito maior do que encher os bolsos de damascos e ameixas.

É uma cena de infância, mas não uma infância limpa. Tem pobreza, medo, religião, fome, improviso, roupa que não serve, sapato folgado, raiva e desejo de fuga. Mas tem também bicicleta, basquete, riso e cumplicidade. Tem la Ofélia.

E, principalmente, tem la Clara.

A mãe de la Ofélia.

Quando as duas chegam à casa dela e descarregam o “saque” na mesa da cozinha, la Clara não faz sermão. Não transforma a alegria das meninas em culpa. Não pede explicação demais. Ela entende a cena antes mesmo de alguém explicar.

 

“Você que é la Chula? La Ofélia me falou tanto sobre você… Não precisam nem me falar de onde tiraram esses damascos. Me desculpo desde já, mas aquela velha esquálida merece.”

 

Eu gosto muito dessa entrada de la Clara porque ela não aparece como santa. Ela aparece como gente. E gente boa, no sentido mais bonito e menos decorativo da palavra. Uma mulher que sabe ler uma situação. Que sabe quando uma criança precisa mais de acolhimento do que de moral.

Depois, quando descobre que era aniversário de Margarita, a casa faz aquilo que a casa de Margarita não tinha conseguido fazer: transforma uma data comum numa memória feliz.

Cantam parabéns. Colocam uma velinha em uma tortita negra. Margarita pede um desejo. E muitos anos depois, ela ainda volta para aquela cozinha pela memória.

Esse é o poder de certas casas.

Elas não duram meia hora. Duram décadas.

Mas o ponto mais bonito vem depois. La Clara e la Ofélia dão roupas usadas para Margarita: uma calça de algodão, uma camiseta com as cores da equipe de basquete de Maciá, um tênis preto folgado, desses que ela preencheria com algodão na ponta para servir. É um presente simples, quase pobre, mas imenso dentro da lógica da cena. Porque não é apenas roupa. É permissão. É pertencimento. É a chance de jogar basquete sem precisar improvisar o próprio corpo dentro do que sobrou.

Margarita agradece, mas logo sente medo. Porque o carinho, para quem vive sob vigilância, também pode virar problema.

Ela diz:

 

“Si mi Mamá encontra estas roupas me mata—”

 

E então la Clara responde:

 

“Sei bem como é a sua mãe, un general, mas não se preocupa. Deixa tudo aqui e você vem para se trocar antes do treino e se la Teresa levantar a mão para você, se ela descobrir algo, pode vir dormir aqui. Costumamos dar refúgio a quem merece, e você merece. Que esta casa seja seu asilo sentimental.”

 

Essa frase é uma das que mais gosto no livro.

Que esta casa seja seu asilo sentimental.

Não é “sua casa”. Não é “sua nova família”. Não é “agora eu sou sua mãe”. La Clara não rouba um lugar que não é dela. Ela não precisa fazer isso. O que ela oferece é outra coisa: um território de proteção. Um espaço paralelo. Uma maternidade sem documento.

Existe uma maternidade que passa pelo corpo. Existe uma maternidade que passa pela lei. E existe uma maternidade que passa pela hospitalidade.

La Clara pertence a essa terceira forma.

Ela não é mãe de Margarita. Não no sangue, não no nome, não na certidão. Mas naquele momento ela exerce uma função materna profunda: ela abre espaço para que Margarita exista sem medo.

Isso parece pouco, mas não é.

Para uma menina que aprende cedo a calcular o risco de cada gesto, ter um lugar onde possa guardar um par de tênis já é muita coisa. Ter uma casa onde possa se trocar antes do treino já é muita coisa. Ter uma adulta que diga “você merece” já é muita coisa.

Talvez a maternidade, às vezes, seja exatamente isso: dizer para alguém que ela merece abrigo.

Não redenção. Não milagre. Não salvação completa.

Abrigo.

Um asilo sentimental não apaga a vida. Não desfaz Mamá, não desfaz a dureza, não desfaz a pobreza, não desfaz o medo. Mas cria uma fresta. E muitas vezes é por uma fresta que a pessoa continua respirando.

Eu penso que a vida de Margarita é atravessada por muitas violências, mas também por pequenos gestos de cuidado que impedem a história de virar apenas sofrimento. La Ofélia é uma árvore onde Margarita pode finalmente bater o bico, como o tuyuyu que ela menciona no trecho. E la Clara é a casa onde esse código morse encontra resposta.

Há pessoas que passam pela nossa vida sem título oficial. Não são parentes, não são responsáveis, não são nada “nosso” no vocabulário burocrático do mundo. Mas ficam. Ficam porque ofereceram um prato, uma roupa, uma cama, uma frase. Ficam porque, quando poderiam ter julgado, acolheram.

A mãe de la Ofélia não era mãe de Margarita.

Mas foi abrigo.

E talvez algumas das maternidades mais importantes da vida sejam justamente essas: as que nunca apareceram em documento nenhum, mas ficaram registradas para sempre na memória.

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