O primeiro rascunho como crime contra a humanidade
Todo primeiro rascunho deveria vir com aviso de conteúdo sensível.
Não porque seja ofensivo, embora às vezes seja. Não porque seja perigoso, embora possa destruir a autoestima de um adulto funcional em menos de três parágrafos. Mas porque o primeiro rascunho é uma espécie de criatura recém-saída do pântano: respira, existe, tem alguma intenção de vida, mas ainda não deveria ser apresentado à sociedade.
O erro está em achar que o primeiro rascunho precisa ser bom. Não precisa. Na verdade, quase desconfio de primeiros rascunhos bons. Eles parecem pessoas educadas demais em festa de família: alguma coisa estão escondendo.
O primeiro rascunho é o lugar onde a frase nasce torta, o argumento manca, a metáfora pega fogo e o autor escreve “desenvolver melhor isso aqui” como quem deixa um bilhete para uma versão futura de si mesmo — uma versão que, evidentemente, também estará cansada.
E tudo bem.
Porque escrever não é produzir beleza imediatamente. Escrever é primeiro cometer um pequeno crime contra a linguagem para depois voltar à cena com luvas, paninho úmido e senso de revisão.
O rascunho é feio porque ainda está vivo demais. Tem excesso, baba, repetição, frases que se acham profundas porque foram escritas depois da meia-noite. Mas ali dentro, no meio do desastre, costuma existir alguma coisa verdadeira. Uma imagem. Um ritmo. Uma frase que sobrevive ao incêndio.
Talvez o primeiro rascunho não seja a obra. Talvez seja só o corpo encontrado no começo do romance policial.
A escrita começa mesmo quando a gente olha para aquilo e pensa:
“Certo. Agora vamos descobrir o que aconteceu aqui.”
