O que minha lista de leituras revela sobre as fases da minha vida
Desde 2009, anoto os livros que leio.1
No começo, a lista tinha uma função bastante simples: impedir que eu esquecesse os títulos. Não havia método, análise nem intenção de construir um retrato da minha formação. Eu terminava um livro, escrevia o nome e seguia para o próximo.
Dezessete anos depois, a lista já não parece apenas uma lista.
Quando observo tudo em conjunto, percebo que os livros formam uma espécie de linha do tempo paralela. Eles registram meus interesses, minhas obsessões, as perguntas que eu fazia e até assuntos dos quais eu provavelmente tentava me aproximar sem saber exatamente por quê.
Uma lista de livros também é uma autobiografia
Existem anos em que eu parecia querer descobrir o mundo inteiro.
Li clássicos, romances juvenis, poesia, quadrinhos, distopias e livros que provavelmente não colocaria hoje numa lista pública dos meus favoritos. Justamente por isso, o registro completo é mais interessante do que uma seleção bem-comportada.
Uma lista de favoritos mostra como queremos ser vistos. Uma lista de tudo o que lemos mostra por onde realmente passamos.
Ela preserva os entusiasmos passageiros, os autores que abandonamos, as curiosidades difíceis de explicar e os livros que chegaram no momento certo, mesmo sem permanecer conosco para sempre.
A fase em que ler significava descobrir
Nos primeiros anos, minha leitura era movida principalmente pela descoberta.
Eu queria conhecer autores, estilos, tradições e maneiras diferentes de contar uma história. Lia William Faulkner perto de Stephenie Meyer, Walt Whitman perto de Woody Allen, Truman Capote perto de romances juvenis contemporâneos.
Hoje, essas combinações podem parecer desorganizadas. Na época, faziam todo sentido. Eu ainda estava descobrindo não apenas aquilo de que gostava, mas também o tipo de leitor que poderia me tornar.
Talvez toda formação literária comece assim: não por um projeto muito claro, mas por uma sucessão de curiosidades.
A fase em que comecei a ler como escritor
Em determinado momento, os livros sobre escrita começaram a aparecer com mais frequência.
Passei a procurar autores falando sobre o próprio trabalho, sobre criatividade, linguagem, construção narrativa e os hábitos necessários para continuar escrevendo. Ler deixou de ser apenas uma forma de entrar numa história. Também se tornou uma maneira de investigar como aquela história havia sido construída.
Isso não significa que comecei a ler exclusivamente como alguém que desmonta mecanismos. Continuava procurando emoção, surpresa e companhia. Mas passei a prestar atenção em coisas que antes talvez atravessassem o texto sem que eu percebesse.
A leitura havia se transformado numa espécie de oficina silenciosa.
A fase das perguntas pessoais
Há também períodos em que a lista parece se voltar para dentro.
Começam a aparecer com mais força livros sobre saúde mental, família, identidade, memória, vulnerabilidade e relações difíceis. Não sei se escolhemos conscientemente todos os livros de que precisamos. Em muitos casos, acho que apenas nos aproximamos de determinados assuntos antes de conseguirmos dizer o que estamos procurando.
Olhando para trás, algumas leituras parecem anunciar questões que depois apareceriam na minha própria escrita.
Não porque tenham oferecido respostas prontas, mas porque me deram formas, vozes e estruturas para pensar em coisas que ainda não tinham encontrado linguagem.
A fase dos retornos
Com o passar dos anos, minha lista também começou a acumular repetições.
David Foster Wallace, J. D. Salinger, Kurt Vonnegut e outros autores reaparecem. Alguns livros são lidos novamente em outra língua. Outros voltam depois de muitos anos, quando já não sou a mesma pessoa que abriu aquelas páginas pela primeira vez.
Durante muito tempo, imaginei que ser um bom leitor significava continuar avançando: novos autores, novos títulos, novas descobertas.
Hoje penso que a releitura também é uma forma de movimento.
Ao retornar a um livro, não encontramos exatamente a mesma obra. O texto pode continuar igual, mas o leitor mudou. Uma frase ignorada na primeira leitura passa a parecer central. Um personagem antes admirado se torna irritante. Uma história que parecia falar sobre o mundo começa a falar diretamente sobre nós.
Os livros que acompanham o que estou escrevendo
Nos anos mais recentes, a presença da memória, da autoficção, da família e da reconstrução de uma vida se torna cada vez mais evidente.
É difícil não relacionar esse movimento ao processo de escrita de la Margarita.2
Ao tentar escrever sobre minha mãe, também passei a procurar livros que enfrentassem problemas semelhantes: como narrar uma vida, como lidar com versões contraditórias, como transformar documentos e lembranças em literatura, como escrever sobre alguém sem fingir que podemos conhecê-lo por inteiro.
A lista mostra que o livro que escrevemos começa muito antes da primeira página. Ele vai sendo preparado pelas leituras, pelas perguntas acumuladas e pelos assuntos aos quais retornamos sem perceber.
O que a lista não mostra
É claro que a lista também tem limites.
Ela não registra tudo o que abandonei. Não mostra quais livros me entediaram, quais me emocionaram ou quais terminaram sem deixar quase nenhum vestígio. Também não explica por que escolhi cada título nem o que estava acontecendo na minha vida naquele momento.
Ainda assim, alguma coisa permanece.
Uma sequência de nomes e autores pode não contar uma história completa, mas oferece pistas. E talvez seja justamente isso que a memória faz: conserva fragmentos e nos obriga a imaginar as ligações entre eles.
Ler também é deixar rastros
Quando comecei a lista, queria apenas lembrar o que havia lido.
Sem perceber, acabei registrando diferentes versões de mim mesmo.
O leitor que queria descobrir tudo. O que começou a pensar seriamente na escrita. O que procurava entender o que acontecia dentro de si. O que passou a voltar aos mesmos autores. O que encontrou na literatura uma forma de reconstruir a história da própria família.
A lista continua aberta porque minha vida também continua.
Daqui a alguns anos, talvez eu olhe para os livros que estou lendo agora e reconheça uma fase que, neste momento, ainda não consigo enxergar.
É uma das coisas mais estranhas sobre manter um registro por tanto tempo: escrevemos o passado sem saber que ele um dia será passado.
Comecei a registrar sistematicamente os livros que lia em 2009. O objetivo nunca foi criar uma lista pública ou um desafio de leitura. Era apenas um registro pessoal. Só muitos anos depois percebi que ela também funcionava como um retrato involuntário da minha formação como leitor e escritor. ↩︎
Enquanto escrevia la Margarita, comecei a perceber que muitas das leituras dos anos anteriores convergiam para questões de memória, família e reconstrução de uma vida. Olhando a lista retrospectivamente, esse movimento se torna muito mais evidente do que parecia enquanto ele acontecia. ↩︎

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