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Mostrando postagens com o rótulo Como escrevo

Os autores que continuam voltando para minha estante

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No post anterior , escrevi sobre como minha lista de leituras acabou se tornando uma espécie de autobiografia involuntária. Ao relê-la, encontrei fases da minha vida que já não lembrava com tanta clareza. Mas ela revela outra coisa. Alguns autores aparecem apenas uma vez. Outros continuam voltando. É curioso perceber isso. Ao longo de tantos anos, certos escritores nunca foram embora. Eles reaparecem quando começo um projeto novo, quando termino um livro, quando sinto que minha escrita ficou excessivamente confortável ou simplesmente quando preciso lembrar por que comecei a escrever. Durante muito tempo achei que isso acontecia porque eram meus autores favoritos. Hoje penso diferente. Talvez existam autores de quem gostamos. E existam autores com quem passamos a conversar. Um livro termina. Uma conversa não. Quando terminamos um romance de que gostamos muito, costumamos dizer que ele “acabou”. Na prática, alguns nunca acabam. Eles continuam trabalhando em silêncio. Anos dep...

O que minha lista de leituras revela sobre as fases da minha vida

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Desde 2009, anoto os livros que leio. 1 No começo, a lista tinha uma função bastante simples: impedir que eu esquecesse os títulos. Não havia método, análise nem intenção de construir um retrato da minha formação. Eu terminava um livro, escrevia o nome e seguia para o próximo. Dezessete anos depois, a lista já não parece apenas uma lista. Quando observo tudo em conjunto, percebo que os livros formam uma espécie de linha do tempo paralela. Eles registram meus interesses, minhas obsessões, as perguntas que eu fazia e até assuntos dos quais eu provavelmente tentava me aproximar sem saber exatamente por quê. Uma lista de livros também é uma autobiografia Existem anos em que eu parecia querer descobrir o mundo inteiro. Li clássicos, romances juvenis, poesia, quadrinhos, distopias e livros que provavelmente não colocaria hoje numa lista pública dos meus favoritos. Justamente por isso, o registro completo é mais interessante do que uma seleção bem-comportada. Uma lista de favoritos mos...

A ansiedade de não saber o que acontecerá na história

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Existe um momento da escrita em que a história para de obedecer. Você começa com uma personagem, uma situação, talvez até um final provisório. Depois de algumas páginas, porém, percebe que não sabe exatamente o que acontecerá. A personagem parece caminhar para um lugar que você não havia previsto. Uma cena que deveria ser simples abre novas perguntas. O romance começa a esconder informações do próprio escritor. Esse desconhecimento pode ser produtivo. Quando não sabemos tudo, precisamos prestar mais atenção. Cada frase se torna uma investigação. Escrever deixa de ser apenas registrar uma história já planejada e passa a ser uma maneira de descobri-la. É nesse espaço que surgem algumas das melhores surpresas. Uma personagem secundária ganha importância. Uma lembrança muda o sentido de uma cena anterior. Um detalhe aparentemente inútil encontra sua função muitas páginas depois. O problema é que o mesmo desconhecimento que mantém a história viva também pode nos paralisar. Não saber o...

Como escrever aquilo que você não conhece

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Sempre ouvimos que devemos escrever sobre aquilo que conhecemos. Acho que esse conselho está incompleto. Se todos os escritores o seguissem ao pé da letra, metade da literatura nunca teria existido. Ninguém conhecia uma baleia branca obcecada antes de Moby-Dick . Ninguém havia vivido o futuro imaginado por George Orwell. Ninguém visitou Macondo antes de Gabriel García Márquez criá-la. A literatura sempre atravessou territórios desconhecidos. Então por que esse conselho continua sendo repetido? O que realmente conhecemos? Talvez a frase nunca tenha querido dizer que devemos escrever apenas sobre fatos que vivemos. O que conhecemos, de verdade, são as emoções. Sabemos como é sentir medo, culpa, esperança, saudade, desejo ou arrependimento. Essas experiências podem existir dentro de uma nave espacial, de um castelo medieval ou de uma pequena cidade do interior. O cenário muda. A condição humana permanece. É isso que torna possível escrever sobre mundos que nunca habitamos. A pes...

Como escrever sobre a própria família sem transformar todo mundo em personagem processável

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Escrever sobre a própria família é uma das formas mais perigosas de literatura doméstica. Não porque falte material. Material costuma sobrar. Famílias são pequenas fábricas de cenas, frases absurdas, silêncios antigos, feridas mal arquivadas, tias que sabem demais, primos que não sabem nada e almoços em que todo mundo finge que a história começou no arroz. O problema é justamente esse: tem coisa demais. Quando a gente escreve sobre a própria família, não está apenas inventando personagens. Está mexendo em pessoas que ainda existem, existiram ou continuam existindo dentro da cabeça de alguém. E essas pessoas podem ter CPF, memória própria, advogado imaginário e uma versão completamente diferente dos fatos. A pergunta, então, não é apenas: posso escrever sobre minha família? Pode. A pergunta melhor é: como escrever sobre minha família sem transformar todo mundo em personagem processável? Família não é material neutro Todo escritor usa a própria vida, mesmo quando jura que não. ...

Como saber se uma ideia dá um romance — ou se é só uma frase bonita

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Toda ideia de romance começa se achando genial. Algumas são. A maioria, infelizmente, é só uma frase bonita usando casaco longo. Isso não é um problema. Frases bonitas também têm seu lugar no mundo. Podem virar conto, crônica, poema, legenda, epígrafe falsa ou aquela anotação no celular feita às duas da manhã que, no dia seguinte, parece ter sido escrita por um desconhecido. O erro é obrigar uma frase bonita a carregar duzentas páginas como se fosse uma mula literária. Nem toda ideia aguenta um romance. E talvez essa seja uma das primeiras coisas que um escritor precisa aprender sem achar que está traindo a própria inspiração. A pergunta, então, não é apenas: essa ideia é boa? A pergunta melhor é: essa ideia se sustenta? Uma ideia boa não é necessariamente uma história Existe uma diferença entre ideia e história. Uma ideia pode ser: Uma mulher encontra uma carta antiga da mãe. Isso é uma ideia. Uma história começa quando essa carta muda alguma coisa. Quando a mulher quer d...

Como escrever sem tempo: o método possível para escritores ocupados

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Nem todo mundo tem uma cabana no mato, três horas livres pela manhã, silêncio monástico e uma caneca fumegante ao lado do computador. Algumas pessoas têm boletos. Outras têm trabalho, filhos, reuniões, trânsito, pia, cachorro, ansiedade, WhatsApp da família e um corpo que, inexplicavelmente, insiste em sentir sono. Ainda assim, muitas dessas pessoas querem escrever. Um conto. Um romance. Um diário. Um livro que talvez nunca se venda, mas que começou a cobrar aluguel dentro da cabeça. A pergunta, então, não é: como escrever quando se tem tempo? Isso é relativamente fácil. Ou pelo menos mais fácil. A pergunta verdadeira é: como escrever quando a vida inteira parece organizada contra a escrita? A resposta curta é: você não precisa encontrar tempo. Você precisa fabricar um método possível. O mito do escritor com tempo livre Existe uma imagem muito sedutora do escritor: alguém sentado diante de uma janela, com o dia inteiro à disposição, sofrendo de maneira esteticamente aceitável....

Como começar a escrever um romance: primeiro, aceite escrever mal

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Todo mundo que quer escrever um romance, em algum momento, desenvolve uma fantasia bastante específica: a de começar certo. Não digo apenas começar bem. Começar certo mesmo. Com uma primeira frase definitiva, uma estrutura minimamente elegante, personagens que já entram em cena com conflitos internos, feridas de infância e uma voz própria. Um começo que pareça começo de livro publicado, não começo de arquivo chamado romance_final_agora_vai_3.docx. O problema é que essa fantasia costuma ser justamente o que impede o romance de existir. Porque começar um romance não é sentar para escrever literatura. Pelo menos não no início. Começar um romance é sentar para produzir uma quantidade razoável de frases suspeitas, cenas frágeis, diálogos que parecem terapia mal transcrita e descrições que provavelmente deveriam ser apagadas antes que alguém chame a polícia estilística. E tudo bem. Na verdade, mais do que tudo bem: é necessário. Antes de escrever bem, você precisa aceitar escrever mal...