Como escrever aquilo que você não conhece


Sempre ouvimos que devemos escrever sobre aquilo que conhecemos.

Acho que esse conselho está incompleto.

Se todos os escritores o seguissem ao pé da letra, metade da literatura nunca teria existido.

Ninguém conhecia uma baleia branca obcecada antes de Moby-Dick. Ninguém havia vivido o futuro imaginado por George Orwell. Ninguém visitou Macondo antes de Gabriel García Márquez criá-la. A literatura sempre atravessou territórios desconhecidos.

Então por que esse conselho continua sendo repetido?

O que realmente conhecemos?

Talvez a frase nunca tenha querido dizer que devemos escrever apenas sobre fatos que vivemos.

O que conhecemos, de verdade, são as emoções.

Sabemos como é sentir medo, culpa, esperança, saudade, desejo ou arrependimento. Essas experiências podem existir dentro de uma nave espacial, de um castelo medieval ou de uma pequena cidade do interior. O cenário muda. A condição humana permanece.

É isso que torna possível escrever sobre mundos que nunca habitamos.

A pesquisa não vem antes da escrita

Existe outro equívoco comum.

Muita gente acredita que precisa pesquisar tudo antes de começar um romance. Espera conhecer perfeitamente uma época, uma profissão ou uma cidade para então escrever a primeira página.

Na prática, costuma acontecer o contrário.

A escrita revela aquilo que você ainda não sabe.

É o texto que começa a fazer perguntas. De repente, você percebe que precisa entender como funcionava uma estação ferroviária em determinada década, como era o cotidiano de uma família de imigrantes ou que tipo de música alguém ouviria naquela época.

A pesquisa deixa de ser um pré-requisito e passa a ser consequência da curiosidade.

Escrever também é investigar

Quando comecei a escrever la Margarita, imaginava que conhecia bem a história da minha mãe.

Afinal, era a história da minha própria família.

Mas bastaram algumas páginas para perceber que eu conhecia apenas a versão que havia chegado até mim. O restante precisou ser pesquisado, perguntado, confrontado com documentos, fotografias e lembranças de outras pessoas.

Em muitos momentos, eu não estava apenas escrevendo um romance.

Estava investigando uma vida.

O desconhecido faz parte do trabalho

Escrever é aceitar que sempre haverá uma parte da história que ainda não entendemos. Talvez seja justamente isso que nos faz continuar.

Não escrevemos apenas para registrar aquilo que já sabemos. Escrevemos para descobrir aquilo que ainda não conseguimos formular. Se existe um bom conselho para quem quer escrever, talvez seja este:

Escreva sobre aquilo que desperta a sua curiosidade.

O conhecimento virá durante o caminho.


Nota: A frase “escreva sobre aquilo que você conhece” costuma ser atribuída ao escritor norte-americano Mark Twain, embora não exista consenso de que ele realmente a tenha formulado dessa maneira. Independentemente da autoria, a ideia acabou se tornando um dos conselhos mais repetidos — e mais frequentemente mal interpretados — da escrita criativa.

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