Quantas versões existem de uma mesma pessoa?
Há uma tendência curiosa quando tentamos lembrar de alguém: acreditamos que estamos falando da mesma pessoa, quando, na verdade, cada memória revela uma versão diferente dela.
A mesma mulher pode ser mãe para um filho, irmã para alguém, amiga de infância, vizinha, colega de trabalho. Em cada uma dessas histórias ela ocupa um lugar diferente. Não porque estivesse fingindo ser outra pessoa, mas porque nenhuma vida cabe inteira dentro de um único olhar.
Talvez seja por isso que escrever sobre alguém seja tão difícil.
Não basta lembrar dos acontecimentos. É preciso aceitar que a nossa lembrança é apenas uma entre muitas possíveis. Ela é verdadeira, mas não é completa.
Quando comecei a escrever la Margarita, descobri que não estava tentando reconstruir uma biografia. Estava tentando entender qual era a Margarita que existia nas minhas lembranças. E essa diferença mudou completamente a maneira como escrevi o livro.
Durante muito tempo imaginei que memória fosse um arquivo. Hoje acho que ela se parece mais com uma conversa. Cada vez que contamos uma história, escolhemos detalhes, esquecemos outros, reorganizamos a ordem dos fatos e, sem perceber, produzimos uma nova narrativa.1
Isso não torna a memória falsa. Apenas humana.
Talvez por isso toda história de família seja composta por pequenas incompatibilidades. Um irmão lembra de uma cena. Outro jura que ela aconteceu de outro jeito. Uma fotografia confirma um detalhe e contradiz outro. Depois de algum tempo, ninguém sabe exatamente onde termina o fato e começa a interpretação.
E talvez nem seja essa a pergunta mais importante.
A literatura raramente procura uma versão definitiva das pessoas. Ela costuma se interessar justamente pelo contrário: pelas múltiplas versões que convivem ao mesmo tempo.
No fim, ninguém é apenas quem foi.
Somos também quem os outros lembram que fomos.
E talvez escrever seja isso: colocar essas diferentes versões para conversar, não para descobrir qual delas está certa, mas para perceber que todas revelam alguma coisa sobre quem estamos tentando compreender.
Foi esse caminho que encontrei em la Margarita. Não o de apresentar uma Margarita definitiva, mas o de acompanhar uma das muitas Margaritas possíveis: aquela que permaneceu viva na memória de quem a amou.
Nota
A psicologia cognitiva entende que lembrar não é recuperar um registro intacto do passado, mas reconstruí-lo a cada evocação. Por isso, pequenas diferenças entre lembranças de uma mesma experiência são naturais e não significam, necessariamente, que alguém esteja mentindo. ↩︎

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