Os autores que continuam voltando para minha estante

No post anterior, escrevi sobre como minha lista de leituras acabou se tornando uma espécie de autobiografia involuntária. Ao relê-la, encontrei fases da minha vida que já não lembrava com tanta clareza.

Mas ela revela outra coisa.

Alguns autores aparecem apenas uma vez. Outros continuam voltando.

É curioso perceber isso. Ao longo de tantos anos, certos escritores nunca foram embora. Eles reaparecem quando começo um projeto novo, quando termino um livro, quando sinto que minha escrita ficou excessivamente confortável ou simplesmente quando preciso lembrar por que comecei a escrever.

Durante muito tempo achei que isso acontecia porque eram meus autores favoritos.

Hoje penso diferente.

Talvez existam autores de quem gostamos.

E existam autores com quem passamos a conversar.

Um livro termina. Uma conversa não.

Quando terminamos um romance de que gostamos muito, costumamos dizer que ele “acabou”.

Na prática, alguns nunca acabam.

Eles continuam trabalhando em silêncio.

Anos depois, uma frase aparece no meio de outra leitura. Um personagem volta à memória durante uma caminhada. Um problema de escrita parece encontrar resposta numa passagem que nem lembrávamos existir.

A primeira leitura é uma conversa entre duas pessoas: o escritor e o leitor que você era naquele momento.

A releitura é diferente.

O escritor permanece praticamente igual.

Quem muda é a outra metade da conversa.

É por isso que nunca lemos exatamente o mesmo livro duas vezes.

Alguns escritores crescem junto com o leitor

Percebi isso olhando para minha própria estante.

David Foster Wallace voltou porque, na primeira leitura, eu ainda não tinha entendido tudo o que ele fazia com a linguagem. Anos depois, passei a reparar menos na inteligência das ideias e mais na construção das frases, no ritmo e na maneira como o humor convive com a vulnerabilidade.

Kurt Vonnegut fez um caminho parecido.

Na primeira vez, fiquei impressionado pela aparente simplicidade. Depois comecei a perceber a engenharia escondida por trás dela. Há escritores que passam a vida tentando parecer inteligentes. Vonnegut parecia fazer o movimento inverso: escondia a complexidade dentro de uma conversa quase casual.

Salinger sempre retorna por outro motivo.

Quando somos jovens, ele parece escrever sobre a juventude.

Depois descobrimos que talvez estivesse escrevendo sobre outra coisa.

Não mudou o livro.

Mudou quem o estava lendo.

Os escritores brasileiros também mudam de lugar

Isso acontece da mesma forma com autores brasileiros.

Machado de Assis é um dos casos mais evidentes.

Na adolescência, chamava minha atenção pela ironia. Hoje, volto principalmente pela precisão com que ele constrói um narrador. Quanto mais escrevo, mais admiro o controle invisível que existe por trás daquela aparente leveza.1

Clarice Lispector faz o movimento oposto.

Raramente volto procurando uma resposta. Volto porque ela continua formulando perguntas que ainda não sei responder.

Rubem Braga reaparece sempre que esqueço que um texto não precisa levantar a voz para ser profundo.

Guimarães Rosa continua me lembrando que a língua portuguesa é muito maior do que a parte dela que usamos todos os dias.

Cada um deles parece ocupar uma função diferente dentro da minha biblioteca.

Não são apenas livros.

São maneiras diferentes de pensar.

Nem sempre voltamos pelo mesmo motivo

Curiosamente, às vezes nem volto aos romances.

Volto para entrevistas.

Cartas.

Ensaios.

Diários.

Cadernos de anotações.

Depois de um tempo, começo a me interessar menos pelo resultado final e mais pelo processo.

Quero saber como aquele escritor pensava.

Como reescrevia.

Como lidava com as dúvidas.

Como enfrentava os dias em que escrever parecia impossível.

Talvez porque, nesse ponto, a leitura já tenha deixado de ser apenas leitura.

Ela virou companhia.

A pequena família literária

Acho que todo escritor acaba formando uma pequena família literária.

Ela não é composta necessariamente pelos maiores nomes da literatura.

Nem pelos livros que aparecem em todas as listas de “obras indispensáveis”.

Ela é formada pelos escritores que continuam conseguindo nos deslocar.

Aqueles para quem voltamos quando um capítulo não funciona.

Quando uma frase parece artificial.

Quando esquecemos por que começamos um projeto.

Durante a escrita de la Margarita, percebi isso com muita clareza.2

Sem planejar, fui retornando aos mesmos autores. Não porque esperasse encontrar soluções para problemas específicos, mas porque confiava na maneira como eles olhavam para a memória, para a linguagem e para a experiência humana.

Nenhum deles escreveu o meu livro.

Mas todos ajudaram a formar o escritor que o escreveu.

O melhor critério

Durante muito tempo, achei que a pergunta importante fosse:

“Qual é o seu escritor favorito?”

Hoje prefiro outra.

“Para qual escritor você sempre acaba voltando?”

A primeira resposta diz alguma coisa sobre o nosso gosto.

A segunda talvez diga alguma coisa sobre quem somos.

Porque um livro favorito é aquele que recomendamos aos amigos.

Mas um autor importante é aquele para quem voltamos quando ninguém está olhando.



  1. Com o tempo, Machado deixou de ser apenas um grande romancista para mim. Passei a enxergá-lo também como um dos maiores arquitetos de narradores da literatura. É uma diferença sutil, mas muda completamente a leitura. ↩︎

  2. Relendo minha lista de leituras, percebi que muitos desses retornos coincidiram com a escrita de la Margarita. Não eram pesquisas diretas para o romance. Eram maneiras de permanecer perto de escritores que enfrentavam perguntas semelhantes às minhas. ↩︎

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