Por que os personagens detestáveis costumam ser os mais interessantes
Na vida, tentamos evitar pessoas detestáveis. Na literatura, precisamos agradecer quando elas aparecem.
Personagens excessivamente corretos costumam ser difíceis de sustentar por muitas páginas. Eles não interrompem conversas, não criam problemas desnecessários, não fazem julgamentos absurdos nem obrigam os outros personagens a reorganizar a própria vida ao redor deles. Em resumo: comportam-se bem demais para produzir um romance.
Ignatius J. Reilly, protagonista de Uma confraria de tolos, de John Kennedy Toole, é um ótimo exemplo do contrário. Ele é arrogante, preguiçoso, ressentido, exagerado e profundamente convencido de que o mundo moderno está errado — e de que ele é uma das poucas pessoas capazes de perceber isso.
Ignatius vive com a mãe, Irene, e boa parte da força cômica do livro nasce dessa convivência. Ele depende dela, critica suas decisões, ocupa sua casa e, ao mesmo tempo, parece considerar-se intelectualmente superior a todos ao redor. É difícil gostar dele. Também é difícil parar de acompanhá-lo.
Isso acontece porque Ignatius não é apenas uma coleção de defeitos. Ele tem uma visão de mundo própria, uma lógica interna e uma enorme capacidade de transformar qualquer pequeno acontecimento em uma tragédia pessoal. Até uma viagem de ônibus pode virar um episódio traumático, recontado inúmeras vezes como prova de que a civilização está em decadência.
Um personagem detestável se torna interessante quando não está tentando ser detestável. Ignatius não acorda pela manhã pensando em como pode irritar sua mãe ou destruir a paciência das pessoas. Ele acredita que tem razão. Talvez essa seja uma das regras mais importantes para escrever esse tipo de personagem: ninguém deve se enxergar como o vilão da própria história.
Enquanto escrevia la Margarita, muitas vezes pensei nessa diferença entre julgar alguém e tentar compreender a lógica de suas escolhas. Escrever sobre a própria mãe, no entanto, não oferece a mesma liberdade de escrever um personagem inteiramente inventado. A pessoa existiu antes do livro, continua existindo na memória dos outros e não pode ser reduzida à função que desempenha em uma narrativa.
Ainda assim, existe algo em comum entre escrever Ignatius e escrever alguém da própria família: os personagens se tornam mais vivos quando resistem à nossa tentativa de explicá-los.
Uma mãe pode ser afetuosa e injusta, forte e frágil, generosa e difícil. Uma pessoa pode provocar amor, raiva, pena e admiração no mesmo capítulo. É justamente essa contradição que impede o personagem de virar caricatura.
Talvez os personagens detestáveis sejam tão interessantes porque nos obrigam a permanecer perto de pessoas das quais fugiríamos na vida real. A literatura nos coloca na mesma casa, na mesma mesa e, às vezes, na mesma viagem de ônibus.
Não precisamos gostar deles.
Só precisamos querer descobrir o que farão na página seguinte.

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