Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Literatura e música

The Mountain Goats como manual anti-autoajuda

Imagem
A autoajuda tradicional costuma prometer uma coisa muito específica: conserto. Ela diz que existe um método. Um hábito. Uma rotina matinal. Um aplicativo. Uma planilha. Uma versão melhor de você esperando do outro lado da disciplina. A autoajuda gosta dessa imagem: você, finalmente organizado, bebendo água, acordando cedo, meditando, fazendo cardio, respondendo e-mails com serenidade, aceitando o passado, perdoando seus pais, superando o ex, arrumando a casa, investindo melhor, respirando fundo e sendo, enfim, funcional. The Mountain Goats não promete nada disso. E talvez seja exatamente por isso que ajude. A banda de John Darnielle não parece interessada em transformar você na sua melhor versão. Ela parece mais interessada em sentar ao seu lado enquanto você ainda é uma das suas piores versões — e não ir embora. Isso é muito diferente. Porque há momentos da vida em que a última coisa que precisamos é de alguém dizendo: “você consegue.” Às vezes, “você consegue” soa quase o...

The Best Ever Death Metal Band in Denton: quando punir o sonho cria monstros

Imagem
Há uma coisa muito bonita — e muito perigosa — em levar adolescentes a sério. Digo perigosa porque adolescentes, quando levados a sério, deixam de ser apenas “uma fase”. Deixam de ser barulho no quarto. Deixam de ser cabelo estranho, camiseta preta, nome de banda ruim, desenho de pentagrama no caderno, raiva teatral, letra escrita com caneta Bic na última página da apostila. Quando levamos adolescentes a sério, percebemos uma coisa desconfortável: muitas vezes eles estão tentando salvar a própria vida com os materiais mais precários possíveis. Uma guitarra ruim. Um quarto emprestado. Um amigo. Um nome de banda. Uma fantasia de fuga. Uma frase absurda repetida como oração. É disso que fala “The Best Ever Death Metal Band in Denton” , dos The Mountain Goats . A música está no álbum All Hail West Texas , lançado originalmente em 2002, um disco frequentemente lembrado pela crueza lo-fi e pela força narrativa das canções de John Darnielle. A história é simples: dois garotos, Cyrus...

Morrer em uma cidade que não para: O ano em que morri em Nova York, Paris e The Mountain Goats

Imagem
Existe uma fantasia muito persistente de que uma viagem pode nos salvar. Não digo salvar no sentido turístico da coisa — descansar, conhecer lugares, tirar fotos, comer melhor, caminhar mais. Digo salvar num sentido quase religioso: sair de um lugar para que uma versão antiga de nós fique para trás. Como se bastasse atravessar o oceano para que a tristeza perdesse o endereço. Como se a depressão tivesse preguiça de passar pela imigração. Mas não é assim. A tristeza viaja junto. Talvez nenhuma música do The Mountain Goats diga isso de forma mais direta do que “Up the Wolves” . Há uma imagem ali que sempre me pareceu brutal: a de que existe um fantasma no fundo do armário, não importa onde você more. Essa é uma frase quase perfeita sobre a inutilidade parcial das fugas. Porque a gente costuma imaginar o trauma como uma coisa presa ao lugar. A casa antiga. O quarto antigo. A cidade antiga. O relacionamento antigo. Então, em algum ponto, parece lógico pensar: se eu sair daqui, se eu atrave...

O mapa não é o território

Imagem
Uma das cenas mais curiosas de Infinite Jest  acontece em um campo de tênis. Um grupo de estudantes da academia Enfield joga um jogo chamado Eschaton. O campo é transformado em um mapa do mundo desenhado no chão. Cada jogador representa uma potência nuclear. Bolas de tênis são usadas como mísseis. Há regras complexas, cálculos, tratados, escalas de destruição. É um jogo meticuloso. Quase científico. Até que uma coisa simples acontece. Um dos jogadores esquece uma regra fundamental: o mapa não é o território. A frase, que vem da teoria semântica de Alfred Korzybski, significa algo muito simples e muito profundo ao mesmo tempo: qualquer representação da realidade — um mapa, um modelo, uma teoria — é apenas uma aproximação. Nunca é a própria realidade. No jogo Eschaton, os jogadores deveriam sempre lembrar disso. O mapa desenhado no chão representa o mundo, mas não é o mundo. Por isso, quando um ataque acontece em um ponto do mapa, os jogadores não devem reagir fisicamente como ...

Histórias pequenas, verdades grandes

Imagem
Há uma coisa que sempre me impressionou no trabalho da The Mountain Goats . Muitas das músicas da banda parecem pequenas histórias. Não histórias grandiosas, cheias de acontecimentos extraordinários, mas fragmentos de vida: uma conversa, uma lembrança, um objeto, um momento que passou quase despercebido. Ainda assim, esses fragmentos carregam uma força emocional enorme. A literatura, às vezes, funciona do mesmo jeito. Durante muito tempo, acreditou-se que boas histórias precisavam de grandes acontecimentos. Guerras, aventuras, viagens, conflitos dramáticos. Mas existe outro tipo de narrativa que trabalha em uma escala diferente: a escala da memória. As músicas do The Mountain Goats, especialmente as escritas por John Darnielle , frequentemente parecem diários cantados. Elas falam de casas, de famílias, de adolescência, de pequenas derrotas e pequenas sobrevivências. São histórias íntimas, mas que acabam dizendo algo universal. Esse tipo de narrativa sempre me interessou. Quando com...